Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

... de Epitáfio.

Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Era um pouco tarde demais. Havia acordado atrasado para o trabalho. Tinha duas alternativas – escapar o banho ou do café da manhã. Optar por qualquer uma dessas alternativas prejudicaria no desenvolver do seu dia, afinal ficaria sonolento na não-execução de qualquer uma dessas opções. Fazer malfeitas ambas as coisas também era uma opção. Um banho de três minutos, um café mal passado. Sono.

 

Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer. Sua carreira profissional era de um prosperar desapontante. Exigia-se muito. Sentia-se esgotado, incompleto. O salário não era lá tão ruim, mas a vida por sua vez – medíocre. Recebia ordens, executava – era simples assim no começo, um capacho. Quando passou a ordenar é que ficou interessante. Estourou a primeira champagne cara que pôde comprar. Era de um amarelo rosado, uma espuma macia e adocicada. A garrafa guardara de adorno como símbolo de toda sua vitória, suas conquistas.

 

Queria ter aceitado as pessoas elas são. Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração. Com os privilégios vieram as cobranças. Maior carga horária, mais dedicação. Quando percebeu era escravo de seu ganha pão. Mas ele crescera – o pobre garotinho de escola pública que se dividia em engraxar sapatos e estudar, passou no vestibular com louvor, se dedicou, merecia o lugar que ocupava numa empresa de sucesso.

 

O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. Pegou a pasta e a agenda. Somado a seus óculos e celular estavam as coisas essenciais para sua rotina capitalista. Passou de ao menos três sinais vermelhos, mas teve de parar num cruzamento. E em outro. E em outro. Era muito trânsito. Essa vida metropolitana, tipicamente exaustiva. Exausto.

 

Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr. Se não tivesse pego aquele atalho? Tentou cortar a cidade ao meio e acabou ficando preso numa ruazinha de bairro. Não foi só ele que teve a grande ideia. Outros cinco quarteirões em carros tiveram a mesma ideia de um possível rápido acesso à avenida, resultando numa sinfonia de palavrões e buzinas. Mas em meio a uma multidão, a janela aberta para o ar fresco de um dia de calor. Em meio a 15 minutos e outros ia assinando papeis cá, uns rascunhos acolá. Algumas ligações e algo prendeu-lhe a atenção no carro ao lado.

 

Devia ter me importado menos com problemas pequenos, ter morrido de amor. Uma morena. Não era pela jovialidade ou beleza que ela prendia sua atenção. Eram os traços de mulher que possuia. Era ela, um velho amor de faculdade, tempos remotos. Uns anos a mais, uns pés de galhinha, quilos que só a tornavam mais feminina e forte. Força, isso que ela aspirava. Agora ela se voltava ao banco de trás e era um bebê? Sim, seu filho, presumia. Média idade, transformara ela numa mulher – tudo levava a crer, carro, roupas... – bem sucedida e bela, e forte. Ele? Um empresário rico e amargo. Ela, feições vívidas, doces. Ele, feições rudes, ásperas. Ande, o sinal abriu – seu inconsciente ou a buzina do carro de trás que o alertava? Apenas deu a partida. Troca a marcha, pisa suavemente no acelerador, parte, para.

 

Queria ter aceitado a vida como ela é. A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier. Foi esse reencontro que lhe causou coragem? Rascunhara um papel. Palavras trêmulas. Arrependimentos de toda uma vida. Sua decisão foi intensa, árdua e repentina. Sua reação de independência, liberdade, sossego. Demissão – pensou e assinou uma carta. Quase um bilhete de tão direto e seco. Poucas palavras determinavam o resto de sua vida.

 

O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. Sobe as escadas da portaria do imenso prédio. O bilhete seria entregue a uma secretária qualquer do 11º andar. Enquanto o elevador subia com o painel piscando não só no número 11, mas em outros ímpares e pares. Pessoas adentravam, e ele sonhava. Pensava nos crepúsculos que veria de uma casa de praia, se sustentaria com um emprego qualquer, meio período, salário mínimo – talvez nem precisassem, talvez suas economias de uma vida fossem o suficiente: uma viagem que nunca aconteceu, as férias que nunca foram tiradas. Tudo isso e todos os sorrisos poupados durante quase trinta anos de uma riqueza não-consoladora. Já sentia a brisa do mar, o abraço da amada, o carinho do filho, a brincadeira a beira-mar com o cachorro que o filho batizaria, um sol refletido num mar que seria um espelho... Sai do elevador. Acabara a luz? Tudo se acende repentinamente, pessoas festejando e fazendo barulho. Cumprimentos, meu velho, chegara onde jamais nenhum estagiário chegara nesta empresa – era o que saia da boca de muitos de seus colegas. Coloca a mão no bolso, um sorriso sem graça, aperta um guardanapo com uns rabiscos, rabiscos que decidiriam sua vida. Falta-lhe coragem. O guardanapo se perde em meio a uns copos de cerveja, uns pratinhos de bolo, no fundo do lixo.

 

Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr.

aos ouvidos: Epitáfio - Titãs

por Dani Takase às 23:26
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