Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

29ª Bienal de São Paulo - Impressões

Por que entrar pelos fundos quando se pode entrar pelos portões da frente? E ao entrar, deparar-se com um círculo. Círculo animalesco, doze monumentos ponderosos. Corriam da serpente ao rato, do porco ao macaco, cachorro, galo... Doze. Um dragão de dentes  mui afiados. Ao entrar pela porta da frente ser devorado por um dragão de dentes mui afiados - embora melhor que ser recebido com a lambida de um cachorro ofegante. Questão de trabalhar perspectivas. E eles olhavam para todos os horizontes. E sabe-se lá até onde poderiam enxergar...

Mas ultrapassando horizontes haviam casas. Casas, sim; tetos, não. Paredes sólidas, paredes abstratas. E quantas páginas sustentariam paredes? E qual seria o cimento? O concreto? Discreto. Quantas palavras desconexas estampariam a decoração? E quantas páginas em branco seriam precisas para que seja manuscrito, datilografado ou psicografado: quantas páginas em branco bastam para o concluir de uma história? Certo é que tijolos não são nada perto da consistência das palavras, estruturas que não trocaria por nada.

Mas se chuva ali caísse, não havia teto e as paredes eram de papel. A fragilidade das palavras se denuncia, mas quem é que não gosta de um banho de chuva?

E se a chuva caísse porém parasse antes de tocar o chão? E se ela jamais caísse? E se ainda assim refletisse a pouca luz? E se? Era como congelar cada gota e traçar suas trajetórias. Era ali, era uma fotografia da chuva. 

 

Mas o que é que seus olhos podem ver? Não é um jogo de perguntas e respostas onde alguém vai estar sempre certo, me desculpe se minhas utopias te incomodam, mas elas não deixam de estar. Certas. Incertas. A obscuridade do pensar é perigoso. Você acha que é gengibre, ou até batata doce. Mas quando se dá conta já nasceu. E se rende em sorrisos alegóricos, categóricos e espanto? Nojo, repugnância, que seja. É genial, meticulosamente brilhante. Qual é o nome que isso recebe mesmo? A-N-I-G-A-V, lê-se. Mas eu ainda prefiro batata doce. 

Doce. Doce era o tilintar. Tilintar, palavrinha tilintante essa, que define a melodia doce do metal contra metal. A doçura duma caixa de música, que não me vence pela delicadeza, mas pelo mecanismo delicadamente sutil. E o tilintar. E a melodia fluiu...

Can you hear that?

- Why is she screaming? - Será que posso lhe perguntar o mesmo? Por que diabos ela está gritando? - She can't sleep. - Ai, não vou dormir a noite! - I can't undestand what she was saying. - Neither can I, minha amiga. - Imagine, imagine what she was saying! - Que bizarro! Eu quero sair daqui. Vamos.

Sair? Pra quê? Eu só quero entender... E fico. Fico e ouço. Sussurro, ininteligível. Meu psicológico entendeu. Se é verdade não sei... Imagine.

E de tanto ver o mexer dos lábios, o ininteligível somou-se a um ligeiro complexo de perseguição que se prolongou até o encontro de algumas letras numa tela, a começar logo por cegos passos com Yoko. Oh, no.

Na noção de conhecimento não se dá conta da quantidade exorbitante de coisas que se aprende. Não se dá conta do tempo que passa, das coisas que se adquire e que se deixa passar despercebida... Nem se dá conta do que passa e fica, dos rascunhos que ficam, ou daquilo que vai se apagando e indo embora.

E por que diabos o ponteiro da bússola está sempre para o Norte? E que Norte referencial é esse que minha bússola está apontando?

E que cor tem essa maldita pele do invisível? Descobri que está nos olhos de quem quer ver, se seu daltonismo não for empecilho, nem mesmo seu ver o mundo em branco e preto ou seu usar de óculos rosa.  Descubra - em todos os sentidos. Dito por não dito, interdito, é. YEAH!


por Dani Takase às 13:30
permalink | comentários | +fav
Domingo, 21 de Novembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - Um "Póslúdio"

– Ma...mãaaae!

– Que houve, tesouro?

– Acho que tive um pesadelo.

– É o que parece. Está todo suado, todo empapado de suor, veja só!

– Isso não importa... Você não sabe como foi... Foi tudo tão... intenso.

– Venha cá – retirou o avental e abandonou-o em cima dum criado mudo, ao lado da cama do menino, sentou-se e colocou a mão sobre a testa do possível enfermo – acho que está variando, está com febre? Se sente mal?

– Foi tudo tão horrível... Aquelas coisas... Aqueles objetos estranhos... Aquelas palavras estranhas, compridas e enroladas... Umas músicas irritantes... Tiros como nos filmes de guerra, mamãe, desses que a gente vê no cinema. Mas não eram filmes. Era no jornal! E tinha um cachorrinho, mamãe! Coitadinho! Morreu de solidão, vê se pode uma coisa dessas... E tinha uma coisa que fazia a comida por nós...

– Mais respeito com a Dona Janira, meu filho.

– Não, não, mamãe, era desses aparelhos que fazem mágica! Eu vou lembrar o nome... Era mico... micro alguma coisa... E eles tinham um aparelho que fazia música!

– Acho que seu pai está te deixando ver filmes demais...

– Não se assemelhava ao vinil, era bem pequeno e... Ah! Os videogames eram mil vezes mais legais que esses nossos... e... Que sono!

– Pronto, está variando mesmo.

O menino afunda a cabeça no travesseiro num sono tão pesado que logo se vê que o cansaço estampado nos olhinhos perambulando sob as pálpebras fechadas. A mãe sorri por um instante, mas sai correndo em direção à cozinha logo que se lembra que deixou algo no fogo. A sobremesa. Torta de maçã.

Já era noite. Noite de outubro. Vinte e oito de outubro do ano de mil novecentos e setenta e três. Ele acorda novamente desesperado, e da sala vem o nada nostálgico som...

"Olhe bem, preste atenção:/ nada na mão, nesta também./ Nós temos mágicas para fazer,/ assim é a vida, olhe para ver..."

Quem diria. De onde veio, então, tanta nostalgia? O que era talvez alegria, hoje em dia embriaga a moderna morbidez.

Não acorde, não. Dorme, menino. Dorme sim, mas não sonha, não. Poupe a si mesmo desse pesadelo cheio de presságios. Em breve não será tão novidade. Em breve não será tão alegre assim. Em breve só será nostálgico. Mas ainda assim, fantástico. Fantástico.

Era domingo a noite. E o que se faz num domingo a noite? Se dorme... Se descansa e se penaliza por acordar no outro dia e dizer que é segunda-feira. É nostálgico. Mas é fantástico.

O sono foi inquieto. Cheio de barbáries... E que Revolução estaria acontecendo? E que valores estariam nascendo? E que surpresas estariam por vir?

"Riso! Criado por quem é mestre./ Sexo! Sem ele o mundo não cresce./ Guerra! Para matar e morrer./ Amor! Que ensina a viver."

Era uma pacata noite de domingo. Ela estava sentada num sofá vermelho, com a cabeça apoiada no ombro do marido. Os filhos estavam dormindo.  O programa podia acabar, a vinheta tão esperada tocar, o domingo se encerrar. E dali pra frente, seria tudo uma outra grande farsa.

 

 

 

 

 

em tags:

por Dani Takase às 23:09
permalink | comentários | +fav
Domingo, 14 de Novembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - A Conclusão

– ... COMPRE JÁ O SEU! ADQUIRA LIGANDO PARA O NÚMERO...

– Céus! – exclama a mulher estendida no tapete da sala e acorda com certa dor de cabeça.

– Ma...mãaaaaaaaaaae! – o grito se estendia e ecoava pelos corredores da casa – mamãaae!

A energia voltara. Depois de mais de dez horas de escuridão, silêncio e abstinência de qualquer tecnologia. A explosão de barulho e luzes e cores e pisca-piscas foi tão súbita e forte que estremeceu a casa quando a energia voltou e tudo se acendeu.

O som pesado num quarto, os tiros no outro, as lamentações e indignações mais embaixo. Tudo estava de volta ao normal. O menino desce as escadas correndo, encontra a mãe e dá-lhe um abraço forte e afoito. A mãe aperta a mão roliça do menininho. Não entendia o que poderia ter acontecido.

– Tive um pesadelo. Foi tudo tão horrível.

– Quer me contar?

– É que... Bom... Era tudo tão... E cheio de... Ah! Você nunca vai entender... Mas era tão...real!

– Acalme-se – e a mulher afaga os cabelos úmidos de um suor que revela um sonho desesperador, – já passou. Agora vá jogar um pouco de videogame enquanto eu esquento a janta, ok?

O menino se livra dos afagos da mãe e em breve entreabre a porta e espia com certa desconfiança. Abaixa-se, observa bem debaixo da cama. Procura rastro de algo que mal sabe o que é. Levanta-se. Examina por detrás das cortinas. No quarto várias luzinhas vermelhas piscam indicando o standby de vários eletrônicos. Por fim debruça-se na cama e alcança no criado-mudo o controle remoto e o joystick. Numa nítida impaciência  e desconforto, deita-se de barriga pra cima, levanta os braços e fica a observar o que possui em mãos e o teto, a lâmpada, uma luz forte lhe cegara os olhos por um tempo e lhe faz agora ver manchinhas por onde olha. Por mais que tenha dormido dez horas, a sensação era de ter acabado de voltar duma guerra. Sensação que não deixa de parecer-lhe real, ainda cogita essa possibilidade. Um sonho tão absurdo e absurdamente convincente.

Mas velhos hábitos nunca mudam. Lá estava a mulher a programar o microondas e tirar comida congelada do freezer. O cachorro latia no porta-retrato que repousava na escrivaninha. Uma foto melancólica. O cachorro late, o menino apóia-se no pai enquanto atira um bumerangue contra o vento. A menina e a mãe estão sentadas num pano xadrez com uma cesta de piquenique, contando formigas. Um lugarzinho verde perdido em prédios monumentais de cimento logo atrás. Um céu azul acidentado, mastigado pela poluição. Mas o bumerangue foi lançado e voltará. Voltara.

A menina agora escuta uma melodia colorida e blasé. Chorando, rindo, falando ao telefone. Arranjando encrenca que logo supera e tudo passa. Ela era a prova de que na adolescência o Carpe Diem era levado ao extremo. Não de um modo geral. Do modo dela.

O menino já estava babando no joystick e os coraçõezinhos que marcavam suas vidas estavam todos apagadinhos e o game over em letras garrafais preenchia a tela. Até que o menino desperta. Manhoso, espreguiça-se e lança um olhar arrastado para a tevê. Viu dois imensos olhos vermelhos. Olhos que o menino conhecia... Pixel por pixel.

 

em tags:

por Dani Takase às 23:57
permalink | comentários | +fav
Domingo, 7 de Novembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - A Penitência

Um tinido estridente e incômodo. Um ruído ensurdecedor, infernal. Os quartos foram transformados em salas cujas paredes eram feitas de azulejos eletrônicos. As tevês cobriam cada centímetro de até então papel de parede azul marinho e de outro lado pôsteres adolescentes. A intensidade do brilho era esgotante, mas o pior era o chiado. Chiado que ia além de tímpanos e martelos, ondas de som que adentravam o cérebro e chocavam e chacoalhavam os neurônios.

De uma fresta na porta a mãe espiava descrente. O menino olhava de olhos exorbitados e sua pupila dilatada como que contida numa escuridão de uma eternidade sem luz. Ele parecia em transe. E reagia com uma lerdeza descomunal. A mãe só segurava em lágrimas a esperança de que aquela máscara de zumbi fosse cair. Mas não cairia.

Ele estava condenado a passar uma semana olhando para aquelas telas. Eram apenas riscos, elétrons chamuscando-se e implodindo. Aquelas imagens tanto fantasmagóricas. Eram granulados e ruídos.

A garota olhava atarantada e não menos zumbi. Os olhos sujos de lápis de olho corroboravam na perspectiva mórbida que apresentava. O caráter pálido e enfermo, sua pele transparente fazia com que as veias aparecessem, desenhavam um caminho todo frenético. Frenético era aquele lugar transbordado de luz.

A mãe fora julgada inocente.

"...uma pobre coitada desmerece sequer alguma consideração. Saia..."

Desmerecia... Eles mereciam, condenados... Que se tratava tudo aquilo afinal?

A mulher sobe as escadas até o sótão à procura de refúgio. As paredes estavam vazias. Não havia mobília, não havia mais nenhum ser animado nem inanimado. Vivo ou morto. Só os dois quartos, inacessíveis, e o resto era silêncio e vazio. E alienação.

As janelas foram tapadas com madeiras. O sol às vezes se mostrara por frestas e mal se sabia quantos dias se  passara. O sótão era tentador. Estender-se naquele chão e dormir, pois nem mesmo um pesadelo seria tão ruim.

 

em tags:

por Dani Takase às 22:31
permalink | comentários | +fav
Sábado, 6 de Novembro de 2010

... de tempestades de novembro (ou de ilusões de óptica ou ainda de azuis)

 

Enganada pelos próprios olhos. Seu corpo ia para frente, seus olhos, mesmo olhando nessa direção, enxergavam o caminho deixado para trás. Olhos turvos, úmidos, atarantados. Os pensamentos diante de tantas direções corria contra todas, ou a favor de todas. Sem direção, sem sentido. Nada fazia o menor sentido.

Mas talvez a física pudesse explicar. Refração da luz e reflexão.

O vidro que outrora a protegera de olhares, a camuflara entre outros corpos e outros rostos, que denunciara a subversão alheia, o vidro. O vidro, como sempre, não transparecia. Seu encantador semitransparecer lhe concedia a possibilidade de observar a tudo, todos e mais além. Era uma dádiva concedida a todos, mas nem todos haviam se dado conta. Mas o céu lhe segredara algo.

Uma visão incomum. Um conselho das nuvens: usar e ousar da perspectiva que só ela possui. Nuvens que desmanchavam-se  com frescor. Tapavam o sol que florescia, ardia, mas não convencia. Tentava escapar pelas entranhas das nuvens e seus raios eram tanto quanto modestos. Mas isso havia ficado para trás. Espelho de um passado contemporâneo. Os lados denunciavam um pano de fundo completamente azul, entre anil e calcinha.

*****

Em extremos, seus iguais (mais conhecidos como azul marinho e azul royal) agora a observavam e incompreendiam e relevavam. Ressaltavam. Cochichavam. Como se o vidro não os denunciassem, pobres parvos. Assunto? Castigo: cinquenta chibatadas para quem não adivinhar. Esqueçam as chibatadas.

Afinal, seria só mais um longo ensolarado dia de novembro. Mas alguém me disse, há certo tempo, disse que há uma calmaria antes da tempestade, I know. Mas você já viu a chuva cair num dia glorioso?

Oh, novembro, vá-se embora logo. Ninguém precisa de você.

 

(05/11/2010, sexta-feira)


por Dani Takase às 23:32
permalink | comentários | +fav

últimas fugas

OEDIPOUS

m.

coletânea de palavras sem...

Sé dulce, Septiembre

No porta-malas

Fortaleza

Solilóquios II - O Margin...

Maio 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


a farsante


descubra.

. 2 seguidores

toda a farsa:

Maio 2013

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

_

toda a farsa:

Maio 2013

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

pesquisar no em fuga -

 

~

(

RSS

_

English French German Spain Italian Dutch
Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
By Ferramentas Blog

?

we♥it