Domingo, 5 de Setembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - O Circo da Democracia

– Oh, não! Mais uma TV? – o barbeador herdou a impaciência do antigo dono.

– Mas é claro, o que me impede de depor? Juro que é de fundamental importância o que tenho para dizer, meritíssima.

– Prossiga.

– Meu companheiro muito vos disse sobre a violência, mas venho lhes propor o esclarecimento de vossas dúvidas, o que lhes parece? Vocês indicam o que querem saber e vos explicarei sem cessar. – mas  ora, vejam só, é a TV da cozinha! – O que me dizem?

– O que me diz então, companheiro, de discutirmos sobre política? – disse a geladeira soltando uma baforada fria.

– Política, minha cara? Então dissertemos, companheiros, sobre o humor pastelão que é a política de hoje, companheiros! Oh, que vergonha! Calafrios me causam os cinquenta minutos que sou obrigado a emitir a pateticidade em que se transformou o horário político. Eles se enfrentam como cães brigando por território. Talvez esse seja o problema: lutam por território e não por ideais. Que me perdoem os cachorros, desmerecidos dessa comparação ínfima. Esses homens – e mulheres – disputam como tais, com as características próprias dos seres humanos: a capacidade de mentir, enganar, ludibriar. Talvez até haja algum fruto bom dentre tantos podres, mas como saber diferenciar? Parecem iguais. Uns acusando os outros até que aparece um palhaço que esculhamba com tudo de vez. Isto é uma vergonha, companheiros! Não há o que fazer... Ir à favela abraçar os pobres? Vasculhar a vida particular dos oponentes e tentar achar uma coisa a que possa se apegar. Procuram defeitos, defeitos e mais defeitos até que se vêem diante dum espelho, do próprio reflexo. Demoram a perceber que são tão iguais. É assim que a política está. Homogênea ou lúdica demais. Distribuir pão é um pouco ultrapassado, agora a moda é falar que vão distribuir computadores, notebooks e internet de graça. Personalidades que por si só não demonstravam menor respeitabilidade agora são candidatos a cargos públicos – e vencerão. Apesar de todo mau-caratismo, toda má-fé, vencerão. Por senhoras como essa que não acredita em mudanças, por adolescentes desinteressadas como essa, ou crianças como esse pirralho que convencem o pai a votar no da roupa mais colorida, melhor trocadilho ou melhor jingle...

– Vote com prazer, k-kham, – uma voz muito promíscua e devoradora sai dos alto-falantes – Desculpe, não pude evitar – desculpa-se o rádio muito sem graça.

– ... Sim, é um exemplo, mas, por hora, acho que devemos parar com esse discurso. De que adianta, não votamos mesmo.

– Se votássemos não faria a menor diferença – suspira um aspirador de pó, fadigoso.

– É aí que você se engana, companheira. O que estamos fazendo aqui neste exato momento? Fazendo a diferença. Não acha que é o que poderia acontecer? Não sei se por comodismo ou por subestimar-se demais, mas as pessoas – e até mesmo nós, objetos – esquecemos de nossa importância individual.

– Mas afinal, que cenário é esse político que tanto  fala?

– Um ventríloquo, um hipocondríaco, um burguês, uma ambientalista, um cristão. E esses são só os principais. Ainda há os ladrões, as prostitutas, os palhaços, os aspirantes a artistas, os filhos de artistas...

– Para cara de pau? Peroba neles! – o rádio interrompe novamente – Desculpe, não pude me conter.

– ... Debates apaixonados! Ideias descomedidas e exorbitadas! Síndrome de perseguição e falsos aliados! Combinar cor de gravata com ideais simbólicos, jogar estatísticas e dados – não a seu favor, mas contra seus inimigos adversários. Chineses invadindo o comércio, proibir alimentos gordurosos, combater a criminalidade, as drogas, o desmatamento, a pobreza, a doença, os chineses! Estou ficando confuso! Conciliar meio ambiente e desenvolvimento, hospedar o mundo inteiro com futebol e depois trazer a Grécia inteira! São tantos ideais, tantas anomalias, tantas discordâncias. É tudo muito desconexo. Acho melhor encerrarmos por aqui, por hora. Cruzar os dedos que não tenho para que não nos coloquem em mãos erradas. Ajudai, ó, bigode grisalho de vestes coloridas, a descobrir afinal de que é que se trata politicagem, pois mesmo depois de anos de experiência não entendo vossa democracia.

 

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por Dani Takase às 20:54
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