Segunda-feira, 12 de Março de 2012

Epifania (dum telefone mudo)

Não ligue pra profundidade mórbida de minhas olheiras. A falta de sono é uma consequência irrelevante. Não ligue para meus músculos cãibrosos, nem minha boca seca e meu bafo de álcool. Do cigarro já havia me livrado - pessoalmente, pois na rua, em meu terno surrado, o cheiro impregna, carregado pelos ventos, soprado pelos soberbos. Não ligue para minha overdose de café e de informação desnecessária. A cafeína deteriora essa notícia de carnificina, que com sorte, me matará antes do último gole. E acabou a ressaca - a bebida e a chuva. Agora posso rezar.

Não ligue, deixe que o outdoor caia sobre minha cabeça e que o cachorro urine em meus pés. Divido malabarismos com meninos de farol e minhas moedas rolam pelos bueiros e entopem a cidade. Enchente. Não ligue. Que o velho urine na parede pichada que tem olhos e marcas de bala. Que meus muros brancos, alvos muros, manchem-se de sangue. Esparramou-se pelo chão, cor de groselha. Piche combina com hemoglobina. Não ligue se minha mão desfalecer, nunca mais aperta a mão de outrém - cordialidade desnecessária. Coisa de burguês. Deixe-a reviver na fúria dum tapa, dum soco, duma carícia vã. Não ligue que apalpe outro corpo, que meus pés fujam por um atalho até o fim dos trilhos. Meus olhos pousem num horizonte com fim certo, que eu durma sem ver o pôr-do-sol.

Não ligue se minha cama tem sempre um alguém - ácaros - e meu peito, sempre vazio. Minha cabeça sempre ocupada, minha mente - vazia. Minha mesa sempre farta, minha boca - vazia. Meu sutiã sempre vistoso, em meu peito vazio.

Não ligue se não há algo de que me orgulhe. Minhas lágrimas formam parábolas transparentes sobre minhas bochechas salientes. Meus olhos são rios intermitentes. Talvez minha voz venha a faltar, não ligue. Me calo. Não ligue para o silêncio - que é pura ausência de som. Se meu silêncio rompe essa ausência, é falta de sentimento, e aí, caro amigo, é outra história. Não ligue.

Não ligue para o esgoto a céu aberto. E nem o subterrâneo de veias podres. Caminham por aí esgotos subcutâneos - sob toda a pele, indiferentemente da pigmentação, um sangue que fede. O caminhão de lixo segue em frente, carrega em si a podridão do mundo. Não ligue. Imagine que utopia, a podridão do mundo num só caminhão. Um caminhão, um caminho mui grande.

Não ligue que a coisa mais suja no mundo seja uma pequena sílaba. No começo um "c", por fim um "u" e no meio, ah! no meio: um buraco negro que suga as estrelas, ó céus. Não ligue e não me dê este céu de presente. É tão meu, tão nosso, tão nós. Este céu, arranham-no. Espero que estas garras não estejam afiadas. As cifras estão.

Não ligue para a estática estátua, Não ligue para a estética da estátua. A pobre foca um só ponto morto. Imagine não poder voltar os olhos a menina que vai, passa e samba, um rebolado tão sutil. Não seguir seus passos até a esquina. Não ver o conversível que levanta poeira, despenteando o motorista e levantando a saia da moça. Todo carro leva um menino, no banco de trás ou no volante, e outro no porta-mala.

Não ligue se o tapete virou lençol, a cortina, cobertor. Não ligue para o teto que não tenho. Não ter teto significa morar sob o céu - diabo de monossílabo! Se nesse amor de subúrbio, a menina se atira debaixo do caminhão às súplicas. Se nesse amor juvenil quebra-se os contos de fadas. Se nesse amor tão moderno, não ligas. Se nesse amor tão fugaz, desaparece. Não ligue pelo jantar a luz de velas que não lhe ofereço. Minha lâmpada de dia é o sol, de noite, a lua. Por azar, é dia de lua nova.

Não ligue se a lua carrega com ela todos os versos do poeta, se o sol carrega todos os verões dos amores e se o tempo leva consigo todas as primaveras. E lá vai junto a menina que samba, o moço do conversível e com eles qualquer amor que parta. Não ligue pro papel que vai ao chão - são poesias desgarradas. Morrem na voz do poeta, tão sem teto, tão sem luz, tão desalmado. Mal amado.

Não ligue se da flâmula fiz flanela e se o hino que entoo é tão mudo quanto as serenatas que não fiz. A moça à janela, tão bela. Meu violão na imaginação. De tão miserável, era infértil até a terra dos sonhos. Faltou húmus, água, calor e luz. Terra dos sonhos morreu. Pátria dos mais belos amores também. Tão mudo quanto as verdades que eu não disse e as mentiras que tentei desfazer. Tão devoto quanto à fé que não tenho, tão crível quanto o terço que fiz adorno e o evangelho que fiz fogueira. Tão certo quanto os métodos científicos que me jogam na sarjeta e calculam a velocidade com que chegarei ao fundo do poço. A gravidade tortura.

Não ligue para os intelectuais que não li, as filosofias que não sigo, o horóscopo que me desatina e a cartomante que me agoura. Não ligue, apocalípticos aflitos, miseráveis, ovelhas negras. Cabeleireiros de tesouras tortas, amantes de arrastão rasgado, políticos de sapato de cristal, professores de chinelo. Não ligue, os jardineiros já não cuidam mais das flores nem as noivas de seus buquês. Piratas sem tapa-olhos, princesas sem sapos e abóboras. Não ligue, homens de avental, mulheres de farda, crianças com camisinha. Não ligue, deixe-me criticar a todos sem saber que erro. É um quebra-cabeças com todas as peças exatamente iguais.

Não ligue para meu desatino, acabou-se a luz. Para o vintém, nenhuma vela. Nenhuma lâmpada - morreu o gênio e morreu a ideia. Com a ideia o vestígio de consciência - mas ligue! Talvez o número não conste na lista telefônica, nem o endereço pertença a este plano cartesiano do mundo. Tão perdidos caminhos enfrentei, ligue. Toda me enfeitei, ligue. Todo me estirei, ligue. No chão que passa marcando passos, coração, marcando pontos. Ligue.


por Dani Takase às 02:08
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1 *:
De Mika a 24 de Junho de 2012 às 04:29
"Piche combina com hemoglobina."
Não só prosa, poesia - ainda que no sentido conotativo da palavra. Um dos melhores que li ultimamente.


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