Sábado, 14 de Abril de 2012

Solilóquios - I (Mera Atriz)

O acordo estava feito. Encontrar-se-iam noutra cidade − a mesóclise dá um ar intimista; à outra cidade, pelo contrário, faz prevalecer o anonimato.  Luz azul ricocheteando nos espelhos. Lençol de cetim. Mesmo sob o azul, sabia-se que era vermelho o cetim. E se sabia.

Ela atrasara ou ele chegara cedo?

Impaciente, ensaiava um assobio. Mirava-se no espelho e tentava vestir seu melhor sorriso, como outrora já fizera, assim, em datas especiais. Levava a melhor roupa e o melhor sorriso. Um toque na porta, que então arrastou-se, um perfume agridoce. Tentou guardar na memória as curvas. Levantou-se por cortesia. Ela tirou o salto e atirou-se ao leito. Mirou-se no espelho novamente, lá ele. Ele e ele, o sorriso. Voltou-se ao leito e ela despira: o sorriso e o vestido.

Ele mal pensara. Algo a dizer? Abafaram-se as palavras sob o cetim e fez-se noite.

Ela adormecera. Ele a contemplava, sob a luz azul que não extinguia a ruga cansada do rosto. Tirou-lhe a franja da testa e contemplou-a mais.  Sonhava? Não parecia estar num sono tão profundo. Pensou em alcançar o telefone, deixar o dinheiro na cabeceira e sair. E o que faziam todos àquela hora?

Pensou na podridão daquele corpo que com sua aproximação, arrepiava. Puta. Sujeira, ópio ou ócio? Pensou na podridão daquela alma. Mulher. Heroína, gente ou mero fantasma? Tinha menos curvas que a enfadonha realidade pedia e mais do que a idealização permitia.

Não era de todo feia. O que fazia ela ao pôr-do-sol?  Contemplava-o com a doçura que ele a contemplava agora ou com o horror de quem odeia quem anuncia a chegada da noite? Ou talvez a essa altura já gemia pelos corredores. Ou, sob o laranja crepuscular sorria. Sorrira. Sim, sonhava. Sonhava agora e brotava um riso infantil de sonho que lhe roubava a promiscuidade.

Alguma vez amara? A pergunta tal como a luz azul ricocheteava no espelho e voltava contra o peito dele. Fizera-o ele? Faltou-lhe algo entre ar e alma. Foi à janela respirar. Afogara-se numa neblina tão densa quanto os pensamentos. Gritou um feliz aniversário à cidade, tão alto quanto os sussurros sob o cetim. Uma música ruim ferira-lhe os ouvidos e então voltara para a cama. Voltou e ela já estava no banho.

Era doce. E não pensava isso por tê-la saboreado. Tirar a roupa não lhe despia da doçura, nem da honra. Lavava-se no escuro. Enquanto a água do chuveiro ia, sem que ninguém o visse, para o mesmo esgoto sujo que se encontra com todas as sujeiras, ele tentava discernir sombra de sombra. Quantas vezes ouvira um eu te amo pela manhã? Nenhuma. Nem ele. Deixou o dinheiro na cabeceira, arrastou a mão pelo cetim até atirá-lo ao chão. Ganhou a rua e foi à pé para o vento apagar-lhe as chamas. Seria longa a caminhada. Andava, amanhecia. Sussurrou um eu te amo pra cidade.

O sol sorria. E qual era mesmo a cor dos cabelos dela?


por Dani Takase às 04:17
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1 *:
De Turista a 19 de Abril de 2012 às 02:58
Na verdade, não pensou no aniversário. Só pensava no momento, na mulher, se precisava realmente daquilo. Pensava na luz refletida em todos os ângulos, pensava nos sons... Pensou até em seus pais e na história que teria pra contar, até o momento em que não pensava em mais nada. A carne agradecia.

Esqueceu do aniversário atrasado.


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