Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

... de cacos afiados (ou suicídio do copo*)

Rancor. Um sentimento tão ruim e mal visto embora inconsciente e incontrolavelmente o mais sincero de todos.
Eram dois pares de olhos saltitantes e exorbitados à sua frente - acusadores e ainda assim piedosos. Indignos. Ao seu lado esquerdo olhos justos e quase acolhedores. Olhos dispostos a julgar e consolar. Dignos. A seu lado direito a mais nobre presença do nada e do ninguém. (In)digníssimos.
E sabe o que a ira causa nas pessoas? Fúria momentânea, cegueira temporária, ações impensadas, uma grande chance de arependimento tardios e perdas materiais - que a ficção representa mui dignamente por vasos, pratos, copos e taças, pois a quebra do vidro é muito sugestiva, tal qual os cacos da porcelana.
Mas o barulho estridente da queda e o mesmo de um chacoalhão acompanhado de um "cai na real" - é que a sobriedade dói, e dói como o quebrar do vidro e grita como a estridente porcelana ou vice-e-versa. É a digníssima realidade.


por Dani Takase às 02:00
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Sábado, 24 de Julho de 2010

... de natureza morta e cinzas de rosas.

 

Uma rosa vermelha em meio a tantas outras gamas. A verdade é que ela estava me tentando. Talvez seja meu psicológico - ou emocional - que tenha me guiado a cometer tal crime. A verdade é que ela estava morrendo, morrendo afogada.
Simpatia ou devaneio?
Curiosidade experimental.
Tomo o isqueiro às mãos. Tal crueldade e audácia nunca sentidas, sequer presenciadas. Sempre um medo diante das chamas. Retiro apenas uma pétala. Um vermelho tão forte que confunde os olhos. O fogo não se propaga, desiste de tal feito. Até ele acha que é crueldade demasiada.
A pétala rubra se retorce mas não se desfaz. Luta bravamente e grita - sua dor faz um sonido, um ruído - crepita. Não a venci. Retorcida, distorcida, continua a /ser/ pétala, permanece a /essência/ de /ser/ rosa. Isso não tiraria dela. Manchas escuras - uma pétala rubronegra. Cinzas alvirubronegras. Cinzas de aroma amargo. Engano-me - perdeu todo o /potencial/ de pétala, de rosa, de ser viva. Cometi um crime.
A rosa inteira enfraqueceu, empalideceu, desfaleceu. O vermelho tão vivo parece já morto, sem vida e sem toda sua espirituosidade. E mais que nunca a certeza - cometi um crime.

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por Dani Takase às 02:03
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Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

... de um oráculo compulsivamente opositor

Vinte de julho, uma mensagem, um "Feliz dia do amigo" e isso já faz um ano.
Andava de óculos e estranhamente curiosamente de mãos dispersas e agitadas. Gesticulava discreta e assim mesmo chamando atenção. Um rosto de pêssego, é o que sempre digo - o veludo, o formato, um pêssego. Se há alguém em algum lugar do mundo que seja tão surpreendentemente diferente - de mim, de qualquer um - não está em Atenas, não é esse tipo de oráculo. A essas horas, Buckingham Palace, maybe.
Perguntando, era irrespondível - se é que isso existe - inquestionável. Dando respostas era confusamente precisa, errônea ou não. Precisa e preciosa.
Take me by the hand and stay by my side. ♫
Usava um adorno no pescoço. Um adorno feroz - um lenço memorável. Era a amada de um astro do rock - que patético. Um astro de rock e um xerife. A imagem do lenço seguindo os contornos do vento, descendo a rua, sua cor de um amarelado dourado reluziam naquele dia junino ensolarado. Seus olhos sorriam irônicamente, mas as cordas vocais denunciavam a sua suave irritação. Passado.
And I'll send all my loving to you. ♪
And suddenly a strange addiction. Two idiots talking in a different language. Maybe beyond the language they talked, they also talked in a subunderstanding language. Portuguese things, English things, nerd things, soccer things, whatever things, no one would understand. Undertandings and disagreeings.
But let's talk about it. Wouldn't it be nice?
Confissões, sorrisos, lágrimas, conselhos, discussões. Muito típico de uma amizade qualquer.
I just want to tell you nothing you don't want to hear.

Um menino que desatava nós e palavras diretas e objetivas contra umas palavras contundidas e enfeitadas, adjetivações. Uma suposta mãe, uma educadora em comum. Verônica. E como um relâmpago tudo me volta a mente, a brainstorm, e memorythunder. Lágrimas rolavam, inclusive o em fuga sabe disso, as páginas de uma história trágica de guerra me comoviam numa tarde nublada e depressiva por si só. A tela do celular se ilumina como que por mágica e anuncia a mensagem doce e carinhosa "Feliz dia do amigo :D" as 16:43.

De estranha weird a pêssego, de pêssego a saumensch, a comentarista, a filha de professora de geografia, revolucionária, capitalista, semi-vegetariana, namorada de astro de rock, broto, pitél selvagem, nerd, bambi, tree hugger, brãsínlia, my darling, minha eterna maior contradição, minha amiga, meu oráculo.

I'll dream of you and the smile that you give to me.

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por Dani Takase às 02:55
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... de faíscas fogo e meias finas;

Sabe qual desenho o fogo faz? No começo é uma explosão, uma explosão de azul (surpreendentemente azul) e um dourado avermelhado. Uma explosão impactante no começo, que depois tremula nas direções do vento, tremula e perambula vulnerável e por que parece tão ameaçadora?

Fogo com aspecto de perigoso e proibido. Ela tinha medo de fogo e medo de meias finas. Ela era delicada demais em vista do fogo e monstruosa demais comparada às meias finas. Meias finas aspira a uma delicadeza inalcansável, uma fragilidade tamanha. Seus medos: que o fogo queimassem suas mãos ou que suas mãos rasgassem as meias.

aos ouvidos: Broken - Amy Lee & Seether

por Dani Takase às 01:32
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Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

... de angústias intituláveis.

Ela deu boa noite com uma ternura fora do normal, com tal ternura nunca antes demonstrada. Apesar da ternura, foi dormir com uma sensação engraçada, um aperto incômodo, um desconforto extremado. Sentindo algo fora do lugar.

Noite escura, silenciosa, intensa. Noite de provocar falta de ar e suspiros e incertezas. Angústia. ¿Qué pasa?

Ela ali, exausta mas confortada, tinha cobertores que a aquecessem numa noite tipicamente fria de inverno. Não há ruído, não há sombras, não há luz. Tudo parece inexistente - subsistente.

Lá, exausto, com roupas que mais agrediam do que aqueciam, sequer sabe-se onde. A cidade nem parece acordada, parece mansa e inofenciva, completamente sonolenta e vulnerável. É cabível que seja o único a perambular - bêbado, mas consciente o suficiente para auto-conhecer cada pedaço de sua  estupidez.

Ela aperta o cobertor contra o peito procurando entender o motivo de se sentir tão mal. Dificuldade de respirar, talvez seja psicológico. Talvez esteja perdendo tempo pensando nisso. Relutando contra uma turbulência interna, cai no sono, mas seus olhos não se fecham descansados, mas preocupados.

Sentado no guia de uma esquina qualquer, onde os postes eram pálidas luzes de sódio que  deixavam sua aparência ainda mais fúnebre. Vômito. Vomitou palavras não ditas. Ressaca de cerveja, vinho barato e vodka má qualificada, arrogância e ignorância. A esta altura mal se sustentava em pé, mal se sustentava na vida. Aquela imagem era o retrato do que construíra na vida: atirado ao chão sobre os restos substanciais adquiridos de seus mals costumes e ações impensadas. Visto de qualquer ângulo era um desgraçado, digno da mais indigna pena.

Ela em seus sonhos turbulentos como seu sono se via andando num pedaço de chão entre dois abismos, onde ventos fortes vindos de todas as direções tentavam desequilibra-la. Lágrimas desesperadas saíam de seu rosto, fraca, um passo em falso, um tropeço, cai, desmorona, flutua o caminho dos ventos numa queda sem fim até que acorda.

Desenhando nos poucos vultos que o rodeavam um rosto jamais visto. Uma saudade intitulável de algo que nunca possuiu. Uma necessidade estranha de algo que nunca teve. As paredes pareciam cair sobre ele, numa rua dem saída de paralelepípedos ásperos. Pegou no sono assim mesmo, uma expressão que mistura alívio, culpa e não - era só uma cena que expressava solidão.

aos ouvidos: Deep playlist.

por Dani Takase às 23:13
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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

... de buquês e porta-retratos.

Para certas ragazzas, a data mais esperada de toda uma vida - até então. Para mim, um dia qualquer em que as pessoas me paparicariam fora da normalidade. Acordei três minutos antes do relógio despertar, mas por capricho fechei os olhos e aguardei Indie-se embalar meu dia.
Tateando o guarda-roupa, puxando as coisas semi-preparadas. Teria que fazer a hw, mas optei por um banho quente de vinte minutos ou mais. Hoje tenho quinze anos. O dia começara mais cedo. À zero hora o primeiro telefonema, o primeiro sms, o primeiro scrap e a primeira mensagem instantânea.
Aniversário. Significa o quê? Sobrevivi. Cheiro de café. Pela fresta da janela um céu azul. A toalha que mais é um turbante poupa meus ouvidos das gotas. Gotas? Chuva. O céu é azul. Eu merecia um presente desses: sol e chuva e um arco-íris todo meu.
Um compromisso, um abraço e felicitações sinceras. Um cumprimento saudoso e formal, mas um abraço carinhoso e nobre.
Como se não bastasse tudo isso, a campainha. Inesperado. Dez da manhã. Minha vista totalmente aberta para a rua não me deixa gerar expectativas. Lembram-se de surpresas de maio, algumas incertezas de junho? Flores. Flores! Rosas. Rosas rosas, rosas amarelas, rosas brancas, rosas liláses(?), rosas vermelhas. As carreguei com certa insegurança, não sei. Ao ler o cartão as lágrimas escorriam como as gotas d'água que se condensavam nas pétalas rosáceas, delicadas demais, me sentia um monstro.

Presentes? Um saldo mais distante de negativo, chocolate e flores. Telefonemas amigos, mensagens saudosas, palavras memoráveis. Há quem fala por educação e sem a mínima intenção. Há quem economiza nas palavras mas capricha no sentimentalisto. Há quem não economiza nas palavras e nem no sentimentalismo. ~ FELIZ 2009 BESHINHA ~ Há quem esqueceu, quem desapontou. E há quem não deixou um recado, um aviso, mas que eu sei que não esqueceu. E que a essa hora deve estar pensando em mim - ou é o que eu quero acreditar.
Queria dissertar mais sobre as flores, mais sobre esse dia, mais sobre tudo, mas basta. Passei um dia de sorrisos e confortos, saudades afogadas e piadas retiradas do baú. Sem bexigas coloridas dessa vez. Sem velas. Estou me livrando de pequenos detalhes, pequenos mimos.
Amanhã terei quinze anos e um dia. Estou pensando em comemorar. Quem comemorará comigo? O que fará esse dia especial? As flores murcharão gradativamente...

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por Dani Takase às 23:04
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Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

... de um viés.

Sonambucriei isto e meu inconsciente, mesmo agora repousando, ainda soberano, exige que eu escreva do jeito que foi pensado: em inglês e baseado em Viés - Vivendo do Ócio.

 

Runnaway from a bias.

 

Sitting under the trees, a fresh air, a white and delicate bench. She was simply writting, simply feeling the wind that waved her hair as it waved the tree's leaves. The wind sudden went wilder and stoled the last flower from a almost-golden-tree. And the flower was in a falling-not-falling, lying lightly and seemed to fall asleep on her lap.

Stop, think, feel, look, see and watch. ♫

Her eyes were in a smile-crying - while one tear falls down the sunbeam hits it and a million-part-of-second-duration-rainbow was alive.

You're as beautiful as you're sagacious, you're gonna understand what I'm saying, you're gonna understand that it's not one of this soap opera's passion. ♪

It doesn't matter if lots of people - the holding-hands ones, the playing-frisbe-with-the-dog ones, the bff's-having-picnic ones, the eldery-couple-walking-around-the-lake ones, the giving-squirrels-food ones, the kids-running-and-playing-hide-and-seek. - were together and her was there alone. She had the flower and the sunbeams, a pen and a notebook. And a endless feeling.

You're my villain, my vital addiction and I necessitate you.

Que tal um Google Tradutor para que vocês entendam. Eu poderia traduzir, isso saiu de minha cabeça, mas acho a perspectiva do Google mais interessante.

Fogem de um viés. (A começar pelo título errôneo, seria 'em fuga de um viés.')


Sentar-se sob as árvores, um ar fresco, um banco branco e delicado. Ela estava simplesmente escrevendo, simplesmente sentir o vento que agitava o cabelo como ele acenou folhas da árvore. O vento repentino foi selvagem e roubou a última flor de uma quase-árvore de ouro. E a flor era de uma queda não-queda, levemente deitada e parecia adormecer no colo. (O que seria uma quase-árvore? O Google foi mais complexo que eu.)

Parar, pensar, sentir, olhar, ver e ouvir. (Até onde eu sabia não tinha colocado no infinitivo, mas sim no imperativo. Alguém enxerga algum 'to'? E desde quando 'watch' é 'ouvir'?)

Seus olhos estavam chorando num sorriso -, enquanto uma lágrima cai o raio de sol bate e um milhão de partes de segundo de duração do arco-íris estava vivo. (Me surpreendi, captou a ideia, mas não a escrita. Na verdade não fui tão direta e exata.)

Você é tão bonita como você está sagaz, você vai entender o que estou dizendo, você vai entender que não é uma paixão esta novela. (Google fail total no to be or not to be, that's the question. Ser e estar é um grande problema, isn't it uncle Google? E esta novela? Que novela? Apóstrofo + s de posse! não contração de is.)

Não importa se um monte de gente - as mãos segurando-a Frisbe jogar-com-as-cão, os bff's-conta piquenique, o casal idosas-os-pé-around-the-Lake, os esquilos dando-alimentar, as crianças, correndo-e-jogo-esconde-esconde. - Estavam juntos e ela estava lá sozinha. Ela tinha a flor e os raios de sol, uma caneta e um caderno. E um sentimento sem fim. (Ok, esse parágrafo eu perdoo. Meus hífens são complicados até pra mim.)

Você é meu bandido, meu vício vital e eu exigir de você. ♫ (És a minha vilã, o meu vício vital e eu necessito de você.)

no momento: a villain.
aos ouvidos: Viés - Vivendo do Ócio

por Dani Takase às 22:20
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Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

... de Epitáfio.

Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Era um pouco tarde demais. Havia acordado atrasado para o trabalho. Tinha duas alternativas – escapar o banho ou do café da manhã. Optar por qualquer uma dessas alternativas prejudicaria no desenvolver do seu dia, afinal ficaria sonolento na não-execução de qualquer uma dessas opções. Fazer malfeitas ambas as coisas também era uma opção. Um banho de três minutos, um café mal passado. Sono.

 

Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer. Sua carreira profissional era de um prosperar desapontante. Exigia-se muito. Sentia-se esgotado, incompleto. O salário não era lá tão ruim, mas a vida por sua vez – medíocre. Recebia ordens, executava – era simples assim no começo, um capacho. Quando passou a ordenar é que ficou interessante. Estourou a primeira champagne cara que pôde comprar. Era de um amarelo rosado, uma espuma macia e adocicada. A garrafa guardara de adorno como símbolo de toda sua vitória, suas conquistas.

 

Queria ter aceitado as pessoas elas são. Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração. Com os privilégios vieram as cobranças. Maior carga horária, mais dedicação. Quando percebeu era escravo de seu ganha pão. Mas ele crescera – o pobre garotinho de escola pública que se dividia em engraxar sapatos e estudar, passou no vestibular com louvor, se dedicou, merecia o lugar que ocupava numa empresa de sucesso.

 

O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. Pegou a pasta e a agenda. Somado a seus óculos e celular estavam as coisas essenciais para sua rotina capitalista. Passou de ao menos três sinais vermelhos, mas teve de parar num cruzamento. E em outro. E em outro. Era muito trânsito. Essa vida metropolitana, tipicamente exaustiva. Exausto.

 

Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr. Se não tivesse pego aquele atalho? Tentou cortar a cidade ao meio e acabou ficando preso numa ruazinha de bairro. Não foi só ele que teve a grande ideia. Outros cinco quarteirões em carros tiveram a mesma ideia de um possível rápido acesso à avenida, resultando numa sinfonia de palavrões e buzinas. Mas em meio a uma multidão, a janela aberta para o ar fresco de um dia de calor. Em meio a 15 minutos e outros ia assinando papeis cá, uns rascunhos acolá. Algumas ligações e algo prendeu-lhe a atenção no carro ao lado.

 

Devia ter me importado menos com problemas pequenos, ter morrido de amor. Uma morena. Não era pela jovialidade ou beleza que ela prendia sua atenção. Eram os traços de mulher que possuia. Era ela, um velho amor de faculdade, tempos remotos. Uns anos a mais, uns pés de galhinha, quilos que só a tornavam mais feminina e forte. Força, isso que ela aspirava. Agora ela se voltava ao banco de trás e era um bebê? Sim, seu filho, presumia. Média idade, transformara ela numa mulher – tudo levava a crer, carro, roupas... – bem sucedida e bela, e forte. Ele? Um empresário rico e amargo. Ela, feições vívidas, doces. Ele, feições rudes, ásperas. Ande, o sinal abriu – seu inconsciente ou a buzina do carro de trás que o alertava? Apenas deu a partida. Troca a marcha, pisa suavemente no acelerador, parte, para.

 

Queria ter aceitado a vida como ela é. A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier. Foi esse reencontro que lhe causou coragem? Rascunhara um papel. Palavras trêmulas. Arrependimentos de toda uma vida. Sua decisão foi intensa, árdua e repentina. Sua reação de independência, liberdade, sossego. Demissão – pensou e assinou uma carta. Quase um bilhete de tão direto e seco. Poucas palavras determinavam o resto de sua vida.

 

O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. Sobe as escadas da portaria do imenso prédio. O bilhete seria entregue a uma secretária qualquer do 11º andar. Enquanto o elevador subia com o painel piscando não só no número 11, mas em outros ímpares e pares. Pessoas adentravam, e ele sonhava. Pensava nos crepúsculos que veria de uma casa de praia, se sustentaria com um emprego qualquer, meio período, salário mínimo – talvez nem precisassem, talvez suas economias de uma vida fossem o suficiente: uma viagem que nunca aconteceu, as férias que nunca foram tiradas. Tudo isso e todos os sorrisos poupados durante quase trinta anos de uma riqueza não-consoladora. Já sentia a brisa do mar, o abraço da amada, o carinho do filho, a brincadeira a beira-mar com o cachorro que o filho batizaria, um sol refletido num mar que seria um espelho... Sai do elevador. Acabara a luz? Tudo se acende repentinamente, pessoas festejando e fazendo barulho. Cumprimentos, meu velho, chegara onde jamais nenhum estagiário chegara nesta empresa – era o que saia da boca de muitos de seus colegas. Coloca a mão no bolso, um sorriso sem graça, aperta um guardanapo com uns rabiscos, rabiscos que decidiriam sua vida. Falta-lhe coragem. O guardanapo se perde em meio a uns copos de cerveja, uns pratinhos de bolo, no fundo do lixo.

 

Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr.

aos ouvidos: Epitáfio - Titãs

por Dani Takase às 23:26
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Domingo, 4 de Julho de 2010

... de fantasmas.

 

Há três dias que nem sequer passa do portão de entrada para fora. Ânsia de que algo ruim possa acontecer? Não. Apenas precaução. Mas era domingo. Domingo de sol tão ferozmente incandescente que nem parecia inverno. Ah, inverno. Veste um sapato com estampa jornalística. Deve ter uma certa paixão por jornais. Uma camisa abstrata e contrastante, um perfume adocicado, passa um batom ousado. Ousadia. Apesar do cenário cotidiano, a trilha sonora surpreendia. As buzinas e a fumaça se afujentam sabe-se lá para onde. Os poucos autos que se atrevem a quebrar esse clima tão confortante, poluem sonorica e visualmente mas o céu de tão límpido parece não se importar.

Há fantasmas perambulando por aí que se atrevem a atordoar a tranquilidade quando todo o ambiente perspirava a seu favor. Ela foi atravessar a rua, desatenta, só se deu contada buzina de alerta quando o perigo já virava a esquerda. Era anúncio - de quê? Outro perigo. Não a esquerda. Vem em sua direção. Straight ahead.

Era uma caminhada que não tomaria mais de cinco minutos. Um caminho geralmente tão pacífico e deserto. Mas depois de tanta desatenção, eis que surge - barba feita, homem feito, juízo? Quem sabe. - a hostilidade, frieza a fez tratá-lo com o desprezo comum. Um sorriso patético de quem se julga desmerecedor é como retribui a sua frieza. Sweet big ass, it's past - rimou. Parece até perseguição, nas ruas, nos jornais, a maneira que conspiram até se encontrar. Patife.

O que aconteceu para que ela seja tão hostil? Não se sabe. Nem ela sabe. "Arruinou minha vida", é o que pensa a princípio. Mas logo percebe que é dramaticidade demais. Desconversa.

Mais um fantasma? Oh, não. Silêncio. Patético. Tudo muito, muito patético. É um fantasma mesmo, camarada, como costumava cultivar. "Ah, não devia ter sido tão rude...", - rude, hostil, fria, gélida. Um muro intranspassável. Misto de orgulho e rancor, raiva, explosão de momento? Cultivou e não há extintor que apague. É a hora do silêncio, preponderoso.

 

Silêncio.

Silêncio dependente de perspectiva. O silêncio que é o vácuo absoluto e absorto de qualquer som. O silêncio compostopor ruídos ambientes, que vai de ondas qubrando ao longe, gorgeio de pássaros num ipê amarelo ou ecos naturais duma selva de pedra. O silêncio que cala, consente, consola e outros inúmeros verbos com C.

O problema dela era ter como melhor amigo todos os tipos de silêncio. Que tal Cilêncio? - não.

 

Um terceiro fantasma aparecera há um tempo. Fantasma a ser tratado depois. Mais que um fantasma.


por Dani Takase às 22:43
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... de amor? - de guerra?

 

 

 Precisamos, mon captain, duma boa guerra, isso sim. Façamos guerra e não amor!

 

Érico Veríssimo.

Trecho retirado do conto Tragédia Numa Caixa de Brinquedos, Fantoches e Outros Contos, 1972.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

aos ouvidos: I Constantly Thank God for Esteban - PATD

por Dani Takase às 21:36
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Sábado, 3 de Julho de 2010

... de indeterminadas determinações.

Eternamente, por toda a eternidade, para sempre, até o fim.

Qualquer jura com pré-estimada menção temporal que tome tempo maior do que deveria a amedrontava. Palavras tem um peso muito grande pra serem lançadas com tanta imprecisão. Não que sejam falsas, é uma precaução para evitar o desapontamento.

E de desapontamentos talvez ela entendesse. De planos frustrados também. De juras eternas que nunca dariam certo, - se é que é preciso mencionar, mesmas juras a que todos se submetem vez ou outra.

Tiquetaquear de relógios e grifos nos calendários revelam que o tempo passa e coisas são esquecidas, não cumpridas. Para ela, só falta de levar as coisas com a intensidade certa, rigorosamente, seriamente.

E de desapontamentos ela já estava farta. E de saudades também.


por Dani Takase às 02:16
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... de verdes, amarelos, azuis e brancos. II

 

 

Não sei o porquê das buzinas, dos rojões e dos gritos. Acho que estão sendo tanto quanto irônicos. Acabou, aplaudam e saiam de cena.

Se fizeram o possível, se é tudo esquematicamente previamente planejado, não sei. Acho que em explosões de momento se perdem muitas coisas que são realmente mais importantes. Motivos que realmente nos levariam a uma paixão tão intensa, a uma devoção tão cega ou mesmo a um digníssimo infarto, se um poético cardíaco ainda não se deu por satisfeito. Not yet.

Ainda não são seis estrelas que cintilaram no azul não tão celeste tupiniquim. Talvez em breve mais uma cintile no azul celeste uruguaio ou no azul calcinha argentino, mas isso realmente não vem ao caso.

Só não se desiludam de qualquer sonho espelhados numa estrela que implodiu e caiu por terra. E que vestia verde, amarelo, azul e branco.

Só me faça um favor: desapareça daqui com sua vuvuzela que me dou por satisfeita.

no momento: shining.
aos ouvidos: muitas coisas.

por Dani Takase às 01:27
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Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

... de casos de vida ou morte.

Quão frágil é a vida? Somos um delicado e complexo emaranhado de hemoglobinas, leucócitos e outros nomes engraçados envoltos em um maleável plástico de características. De tão iguais nos tornamos diferentes.

obs: Algo me disse: "Não confie em uma dócil rúbia que lhe pergunta as horas. Ela te observa desde que entrou". Cale-se subconsciente. Estranhos são tão confiáveis quanto você.

Histórias que comovem. Não é o sangue, o quanto de sangue, como o sangue, mas por que o sangue? O importante não é quantos ossos se quebraram ou quais quebraram-se, mas qual o motivo dos ossos quebrados?

obs2: Sentar-se tupiniquimente, cantarolar em outras línguas, escrever à 60km/h e apontar um lápis estridentemente me torna o emaranhado de hemoglobinas mais complexo deste ônibus. Não que seja de fatal importância, estou seca e sem graça demais ultimamente para me importar.

Medidas desesperadas de acabar com o sofrimento, talvez seja parando de pensar nele, mas não dessa forma tão trágica: parar de pensar - no sofrimento, nele, nela, em tudo.

obs3: "Queria entrar no Orquídeas e pegar um trânsito caótico, passar do ponto e ir parar sabe-se lá aonde", era o que eu tinha em mente antes de entrar ali, "somente em meio a essa multidão de plásticos maleáveis é que me sinto só e me sinto eu mesma."

Eis que o que nos difere é a forma de pensar. Infortunamente há pessoa que acabam com os emaranhados de hemoglobinas, os plásticos maleáveis e a maneira de pensar alheia - sem se esquecer os que desesperadamente drasticamente tiram isso de si mesmos.

obs4: A maioria das pessoas que passam por aquela porta são mulheres, estranhamente, no Orquídeas somos maioria - o #555 logo ali.

A vantagem de acabar com o isso alheio talvez seja o consolo de permanecer com seu isso. Já a vantagem de tirar o isso de alguém permanece uma incógnita absurda, mas não seria consolo para alguém algum.

obs5: Seria desleal usas essa palavra, mas o fato de um quase psicografar essas palavras, pura osmose. Sorte de quem lê apenas os caracteres padronizados, pois o escrito farmacêutico e rasurado tão somente eu compreendo, todas as minhas intenções.

Apesar de uma história tão obscura não é sobre a dor que isso se trata. É inverno, mas nem está tão frio assim.

obsperdendo as contas: Não estou mais em Orquídeas ou em nada que soe tão poético. Tão sozinha quanto antes, mas não tão complexa.

Não é questão de ter amor, dar valor, sentir a dor - rimar com or e colocar diferentes vogais temáticas. Desistir é uma palavra que define muito bem essa sensação, mas enfatidicamente falando é a maneira fraca-frágil que o maleável hemoglobínico emaranhado plástico pensante encontra para acabar.

obso último: Não sei se era importante que soubessem de minhas observações instantâneas. Talvez no pensamento elas ficassem melhor colocadas, mas elas quisaram saltar para o papel. Agora preciso de um final.

Na sombra a sensação térmica era tão fria quanto essas palavras. Debaixo do sol já não era a mesma coisa. E o sol já brilhava demais. E o meu sol não é o mesmo sol que todo mundo vê.

 

post scriptum: A carência do meu eu está muito enfatizada e esse é o marco dessa necessidade. Marco final. Sem "eu", "me", "mim" por um bom tempo. Dei a eles lugar o suficiente.

 

aos ouvidos: PATD, Raul Seixas, VDO, VE.
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por Dani Takase às 02:22
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