Domingo, 24 de Outubro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - O Veredicto (parte II)

A mulher carregava no rosto aqueles traços inexpressíveis. Aquelas características igualmente distribuídas entre os humanos. Faltava-lhe personalidade. Ela era simplesmente o cúmulo da normalidade, da pacatez.

O garoto era redondamente irritante. Era sedentariamente estridente. Era exuberantemente  chato. Era de uma chatice incontível.

A menina tinha traço irresistível de rebeldia. Esse traço lhe transbordava tanto que a deixava insuportável. Era um pouco de tudo que as pessoas odeiam, amontoadas numa só personalidade. E personalidade lhe sobrava. Jovialidade lhe sobrava. E por que tudo isso era tão insuportavelmente irritante? Insuportável é a palavra que lhe define e isso basta.

E por que uma apresentação tão tardia? Preenchendo perfis de redes sociais por eles. Não daria certo. São inomináveis. Seria até ofensa batizá-los. Seria até má fé de minha parte. Não por serem indignos a esse ponto, mas porque dignidade lhes sobra.

Ouviam-se apenas cochichos. O sol se fora completamente e a noite fazia com que a rua vazia parecesse ainda mais deserta. Não havia carros, não havia passos, sequer vida fora dali. Pássaros não cantavam, cachorros não latiam nem viravam latas.

Discutiam em silêncio ou algo já estava decretado, pois o silêncio era  absoluto e mortificante.

Não é qualquer silêncio. É aquele silêncio de se ouvir respirações dos poucos que respiravam, cada qual em seu lugar, trancado, sentenciado a nada mais que ouvir sua sentença. Em breve ou em infinitos segundos. Era tudo tão impreciso.

A mulher estava dócil, mas havia inquietude em seus olhos. Olhos severos.

A menina estava numa banheira sem sequer uma gota d'água. Seus carrascos eram o secador e o barbeador. Era irônico o aparente flerte entre os dois. Era irônico como todos os eletrodomésticos eram de uma humanidade infinda. De mãos e pés atados, de boca tapada. Parecia agressivamente inofensiva.

O menino estava no sótão, era alérgico a poeira e achava que seu  castigo já tinha sido decretado – passar o resto da vida espirrando até que fosse consumido pelo próprio espirro. Era bem possível. Esta era uma hipótese relativamente incoerente e proveitosa. Melhor que qualquer uma das possíveis penitências. O que mais poderiam lhe causar? Eletrocussão? Ora, que sejam mais originais ou criativos. Se pudesse gritar, lhes proporia um desafio. Que qualquer que seja a decisão que seja tomada com a eficácia de uma máquina e a audácia de um homem. Com o raciocínio mecânico, mas com a (in)sensibilidade humana.

Tudo partia de dois pressupostos: uma decisão e uma execução. Veremos.

 

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por Dani Takase às 23:59
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