Domingo, 15 de Agosto de 2010

A Farsa da Revolução Tecnoeletrodomestilógica - O Movimento

Num quarto ouviam–se tiros; no outro, lágrimas; no outro, "I'll say you what I want, what I really want..." – hm, muito retrô. Correção: num quarto metralhadoras, no outro metralhadoras – jornalismo verdade, é como batizam, vai entender – no outro "Eu já cantei uô-uô e também yeah-yeah". A metralhadora – de videogame, as lágrimas ao som de metralhadoras – revelam a identificação de uma mulher desesperada com mais um programa desesperador qualquer, a música – só para não enfatizar um clima tão melancólico e mortificante.
Um silêncio esmagador. Uma escuridão tanto quanto esmagadora. Um soluço – só as lágrimas continuaram. Pensem na voz mais patética, aguda e irritadiça: "Ô mãe, acabou a luz?!". A resposta se limitou na atitude do próprio gurizinho sardento apertar freneticamente o interruptor. É, falta de luz. Quanto tempo? Só o tempo dirá. E então um mundo incomunicável, sombrio até, mas tranquilo. Quinze minutos: nada. Meia hora, duas horas... Nada. Melhor dormir.

*****

Nunca houvera sono tão profundo e bem aproveitado. Todos dormiram no mínimo dez horas. O menino dormiu tão aparentemente suave que parecia confortado em nuvem de algodão. A menina, tão raramente flagrada em tão serena forma, angelical até, arriscaria dizer. A mulher pareceu descansar por todas as noites que passara em claro sofrendo, chorando.
O saquinho de batatas sardento sorria e se espreguiçava. "Maaaa..mãe...", sussurrou de olhos semi-abertos. Quando os abriu foi surpreendido por... – não, não, só engano. A impressão foi de que a tevê estivesse o fitando. Bobeira. Saltitante foi até a porta, mas seus pézinhos gordinhos estavam sendo observados. Virando repentinamente para a tevê flagrou aqueles dois imensos olhos vermelhos, pixel por pixel, conhecia-os muito bem. Inimigo quase-imbatível de seu jogo favorito e centralizadas as palavras: "Game over". Significa isto que a energia voltou, certo? Pressionou o botão power do videogame e ia enfim se retirando do quarto quando, sabe-se lá como – visão periférica possivelmente –, a tomada estava vazia. Nenhum fio conectado. Inconformado, foi verificar de perto – pobre tolo. Um fio de paradeiro duvidoso deu-lhe um golpe e rapidamente ele estava caído inconsciente no chão.
– O último, chefe?
– O último. Daremos sequência a nossa reunião.

*****

 Uma fila desfilava e rebolavam – na frente algumas fitas, talvez todos os clássicos WaltDisney e alguns vídeos caseiros; a seguir uma imensidão de Cd's e Dvd's, alguns piratas, alguns com a etiqueta amarela de liquidação, outros tantos de trilhas de novelas; então aparelhos menores como velhos radinhos de pilha (aqueles AM/FM com lanterna na ponta), aparelhos de Mp3, Mp4 e Mp(incógnita); celulares, desde os tijolões até os touchscreen; desengonçadamente um computador andava com suas peças cambaleando mas foi ultrapassado pelo notebook; televisores, muitos televisores, até o de catorze polegadas preto e branco que andava abandonado no sótom; pof fim um batalhão de utilidades domésticas (fogão, geladeira, microondas, aspirador de pó), o microsystem e o home theater e enfim o pelotão de controles remotos (todos os tamanhos e botões de todas as cores – imagináveis e inimagináveis).
Estava armada e declarada a guerra.

 

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por Dani Takase às 02:30
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Domingo, 8 de Agosto de 2010

A Farsa da Revolta dos Eletrodomésticos - mudando de nome

O menino era gordinho, sardento e pirracento. Crescera ouvindo da mãe que ele fora um acidente. Ele sempre vira a si mesmo como um estorvo – no começo se martirizava, mas agora tomou gosto por ser um castigo. Para sumi com suas tristezas devora qualquer junky food que não só estimula sua hiperatividade como também aumenta gradativamente seu corpanzil. O único jeito de perder calorias é na caminhada que levava da tevê até o computador – não mais. Agora tem tudo no seu quarto. Será que os movimentos dos dedos descontrolados no joystick e teclado gastam calorias ou só causam síndrome por movimento repetitivo? Creio que não.
Já a progesterona andante se contenta com uma maçã por dia. Apesar que duas folhas de alface é um item bastante requisitado nesse cardápio – de anorexia nervosa. Parece perigoso, mas acalmem-se, é passageiro. Essa rotina alimentar precária é recente. Coisa de dois dias. Sábia decisão tomada após o término de seu relacionamento – o relacionamento de número 29 – relacionamentos que duravam semanas, dias, noites... – e tinham acabado de trocar alianças, vejam só! A décima primeira aliança. Ela tinha um cofrinho – de lata, pequeno corte em cima – no qual não havia moedas. O tilintar metálico lá dentro dá-se aos dez – agora, onze – anéis de compromisso. Quanto compromisso. Exige responsabilidade e maturidade, não chore, criança... Esteja certa de que em breve aparecerá o décimo segundo tilintar, o décimo terceiro, o trigésimo romance; tudo questão de números.
Fisicamente era bem diferente de seu irmão, de sua mãe, de seu pai. Corria o boato de que não era filha do pai. "Mas qual! Ela é adotada!". Boatos. Aliás, talvez seja importante ressaltar que ela fora o motivo do casamento precoce de seus pais. A grávida adolescente e o garanhão incontrolável, um relacionamento repleto de desamores e culpas e acusações e (des)obrigações. Divórcio depois do acidente... Enfim! Voltando ao assunto: ela. Desesperados apelos por atenção refletiam-se na cor, no corte ou na falta de cabelo. Engraçada a vez que aparecera de careca reluzente, puro capricho. Mas o cabelo chanel azul não lhe caia tão mal. No momento é (está? to be nessas horas resolveria meus problemas) de um desbotado com camadas coloridas. Um horror, se quer saber. Seu sedentarismo não é dos piores. Usa o computador basicamente para gerenciar seus perfis em algumas (muitas) redes sociais – todos aqueles estrangeirismos que puderem imaginar. É lá que encontrou a carta/ideologia de suas amigas Ana e Mia, amigas essas que vocês não vão gostar de conhecer. Anorexia e bulimia. Sua mãe não percebera ainda. O irmão a apoiava com palavras amigas: "De que adianta isso? Pior você não pode ficar." – ao término da frase uma risada estridente e maligna. Na verdade eles não deveriam mesmo se preocupar, do jeito que é fraca logo desistiria e iria para um outro modismo qualquer – próximo passo: criar uma banda? Possível.

 

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por Dani Takase às 18:45
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Domingo, 1 de Agosto de 2010

A Farsa da Revolução Tecnológica

Uma família reunida tomava o tão simbólico café da manhã. O pai, de um canto da mesa:
– Querida, pode me passar a manteiga?
A esposa passava a manteiga. Haviam algumas xícaras de café fresco, algumas canecas de leite quente, chocopowder, pão francês, manteiga, dois filhos e um a caminho. O jornal repousava sereno no colo do pai, aguardando-o pacientemente até ingerir a última gota de café, ao som de um bolero que sai do rádio graciosamente posicionado embaixo da janela que revela um bonito sol. O filho se retira da mesa e logo já está rolando no tapete da sala imitando seu herói favorito, enquanto no tubo de elétrons o herói destrói seus inimigos – muito inspirador, bela lição de moral, "quem faz o mal...". Toda essa cena é muito inspiradora. Parece mais uma cena de mil novecentos e alguma coisa. Que tal um cenário mais contemporâneo?
A mãe enquanto programa o microondas para esquentar o leite, se debruça no balcão para não perder nenhuma fofoca matinal, a TV localizada na cozinha com este propósito. E que bom que o microondas, depois de programado, pára automaticamente. Afinal, pobre fogão, quanto sofreu com os esquecimentos da mulher – esquecimentos não, fome de saber da vida alheia, diga-se de passagem – o leite subia, aquela espuma fervorosa e nada mais que o fogão poderia fazer, just cry over the spilled milk.
O marido? Ex-marido, – que fique claro que a autora não acha que os tempos modernos as mulheres não tenham maridos; essa não têm; muitas não tem, mas não vem ao caso. – aparece de quando em quando para ver os filhos. Filhos – a adolescente mal-amada e mimada (quanta contradição) e o pirralho birrento e hiperativo – e mais uma vez nada de generalizações, esses cenários acontecem.
Enquanto o microondas informa que o leite está quente, a bomba de hormônios acorda frustrada – com a vida? com o barulho? com a mãe? consigo? – e caminha quase zumbi para a cozinha, pega o leite e se tranca novamente em sua caverna onde hibernará até que um ruído a desperte de seu sono de beleza. O menino já acordado – aliás nem sequer dormiu. O videogame é testemunha de todas as 7 horas que ficou ligado. Apenas 7 horas porque quando o relógio marcava 3:00am o computador estava sendo desligado, e antes dele, às 00h quem permanecia ligada era a tevê.
O jornal sim, este vivia inconsolável, pobrezito. Ele era gratuito, atirado no jardim, requer apenas olhos atenciosos que o fitem. Mas nem as headlines. Mui raramente a adolescente com muita brutalidade e insensibilidade resolvia olhar seu horóscopo, de Áries – difícil.
Quando a casa tinha um cachorro, ele ainda se importava com os jornais. Pelo menos eles tinham alguma função – não que um vira-lata defecando sobre você seja muito agradável, mas já era consolo. O cachorro é apenas mais uma vítima de tanta alienação distração, ah, como sofreu. Morreu de solidão, acreditem. Talvez o jornal fosse sua única companhia, era uma solidão mútua. Se o bichento tivesse morrido há cinco anos atrás os pirralhinhos talvez tivessem se importado. Talvez tanto ao extremo de querer morrer juntamente com ele. Bob, bobão. Nem enterro digno teve. Nem vale a pena contar o fim que teve. "Morreu de solidão" é um bom diagnóstico para um atestado de óbito.
Enfim, uma cena muito inspiradora.

 

_________________

 

 

Não sei se tenho veia para ironias ou humores, mas é uma tentativa vaga. Capítulos dessa farsa serão apresentados aos domingos, com nomes que não farão sentido, neste mesmo fundo fúnebre, nestas mesmas palavras secas. Uma tentativa sarcástica e sagaz.

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por Dani Takase às 23:59
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últimas fugas

A Farsa dos Eletrodomésti...

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