Domingo, 21 de Novembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - Um "Póslúdio"

– Ma...mãaaae!

– Que houve, tesouro?

– Acho que tive um pesadelo.

– É o que parece. Está todo suado, todo empapado de suor, veja só!

– Isso não importa... Você não sabe como foi... Foi tudo tão... intenso.

– Venha cá – retirou o avental e abandonou-o em cima dum criado mudo, ao lado da cama do menino, sentou-se e colocou a mão sobre a testa do possível enfermo – acho que está variando, está com febre? Se sente mal?

– Foi tudo tão horrível... Aquelas coisas... Aqueles objetos estranhos... Aquelas palavras estranhas, compridas e enroladas... Umas músicas irritantes... Tiros como nos filmes de guerra, mamãe, desses que a gente vê no cinema. Mas não eram filmes. Era no jornal! E tinha um cachorrinho, mamãe! Coitadinho! Morreu de solidão, vê se pode uma coisa dessas... E tinha uma coisa que fazia a comida por nós...

– Mais respeito com a Dona Janira, meu filho.

– Não, não, mamãe, era desses aparelhos que fazem mágica! Eu vou lembrar o nome... Era mico... micro alguma coisa... E eles tinham um aparelho que fazia música!

– Acho que seu pai está te deixando ver filmes demais...

– Não se assemelhava ao vinil, era bem pequeno e... Ah! Os videogames eram mil vezes mais legais que esses nossos... e... Que sono!

– Pronto, está variando mesmo.

O menino afunda a cabeça no travesseiro num sono tão pesado que logo se vê que o cansaço estampado nos olhinhos perambulando sob as pálpebras fechadas. A mãe sorri por um instante, mas sai correndo em direção à cozinha logo que se lembra que deixou algo no fogo. A sobremesa. Torta de maçã.

Já era noite. Noite de outubro. Vinte e oito de outubro do ano de mil novecentos e setenta e três. Ele acorda novamente desesperado, e da sala vem o nada nostálgico som...

"Olhe bem, preste atenção:/ nada na mão, nesta também./ Nós temos mágicas para fazer,/ assim é a vida, olhe para ver..."

Quem diria. De onde veio, então, tanta nostalgia? O que era talvez alegria, hoje em dia embriaga a moderna morbidez.

Não acorde, não. Dorme, menino. Dorme sim, mas não sonha, não. Poupe a si mesmo desse pesadelo cheio de presságios. Em breve não será tão novidade. Em breve não será tão alegre assim. Em breve só será nostálgico. Mas ainda assim, fantástico. Fantástico.

Era domingo a noite. E o que se faz num domingo a noite? Se dorme... Se descansa e se penaliza por acordar no outro dia e dizer que é segunda-feira. É nostálgico. Mas é fantástico.

O sono foi inquieto. Cheio de barbáries... E que Revolução estaria acontecendo? E que valores estariam nascendo? E que surpresas estariam por vir?

"Riso! Criado por quem é mestre./ Sexo! Sem ele o mundo não cresce./ Guerra! Para matar e morrer./ Amor! Que ensina a viver."

Era uma pacata noite de domingo. Ela estava sentada num sofá vermelho, com a cabeça apoiada no ombro do marido. Os filhos estavam dormindo.  O programa podia acabar, a vinheta tão esperada tocar, o domingo se encerrar. E dali pra frente, seria tudo uma outra grande farsa.

 

 

 

 

 

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por Dani Takase às 23:09
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Domingo, 14 de Novembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - A Conclusão

– ... COMPRE JÁ O SEU! ADQUIRA LIGANDO PARA O NÚMERO...

– Céus! – exclama a mulher estendida no tapete da sala e acorda com certa dor de cabeça.

– Ma...mãaaaaaaaaaae! – o grito se estendia e ecoava pelos corredores da casa – mamãaae!

A energia voltara. Depois de mais de dez horas de escuridão, silêncio e abstinência de qualquer tecnologia. A explosão de barulho e luzes e cores e pisca-piscas foi tão súbita e forte que estremeceu a casa quando a energia voltou e tudo se acendeu.

O som pesado num quarto, os tiros no outro, as lamentações e indignações mais embaixo. Tudo estava de volta ao normal. O menino desce as escadas correndo, encontra a mãe e dá-lhe um abraço forte e afoito. A mãe aperta a mão roliça do menininho. Não entendia o que poderia ter acontecido.

– Tive um pesadelo. Foi tudo tão horrível.

– Quer me contar?

– É que... Bom... Era tudo tão... E cheio de... Ah! Você nunca vai entender... Mas era tão...real!

– Acalme-se – e a mulher afaga os cabelos úmidos de um suor que revela um sonho desesperador, – já passou. Agora vá jogar um pouco de videogame enquanto eu esquento a janta, ok?

O menino se livra dos afagos da mãe e em breve entreabre a porta e espia com certa desconfiança. Abaixa-se, observa bem debaixo da cama. Procura rastro de algo que mal sabe o que é. Levanta-se. Examina por detrás das cortinas. No quarto várias luzinhas vermelhas piscam indicando o standby de vários eletrônicos. Por fim debruça-se na cama e alcança no criado-mudo o controle remoto e o joystick. Numa nítida impaciência  e desconforto, deita-se de barriga pra cima, levanta os braços e fica a observar o que possui em mãos e o teto, a lâmpada, uma luz forte lhe cegara os olhos por um tempo e lhe faz agora ver manchinhas por onde olha. Por mais que tenha dormido dez horas, a sensação era de ter acabado de voltar duma guerra. Sensação que não deixa de parecer-lhe real, ainda cogita essa possibilidade. Um sonho tão absurdo e absurdamente convincente.

Mas velhos hábitos nunca mudam. Lá estava a mulher a programar o microondas e tirar comida congelada do freezer. O cachorro latia no porta-retrato que repousava na escrivaninha. Uma foto melancólica. O cachorro late, o menino apóia-se no pai enquanto atira um bumerangue contra o vento. A menina e a mãe estão sentadas num pano xadrez com uma cesta de piquenique, contando formigas. Um lugarzinho verde perdido em prédios monumentais de cimento logo atrás. Um céu azul acidentado, mastigado pela poluição. Mas o bumerangue foi lançado e voltará. Voltara.

A menina agora escuta uma melodia colorida e blasé. Chorando, rindo, falando ao telefone. Arranjando encrenca que logo supera e tudo passa. Ela era a prova de que na adolescência o Carpe Diem era levado ao extremo. Não de um modo geral. Do modo dela.

O menino já estava babando no joystick e os coraçõezinhos que marcavam suas vidas estavam todos apagadinhos e o game over em letras garrafais preenchia a tela. Até que o menino desperta. Manhoso, espreguiça-se e lança um olhar arrastado para a tevê. Viu dois imensos olhos vermelhos. Olhos que o menino conhecia... Pixel por pixel.

 

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por Dani Takase às 23:57
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Domingo, 7 de Novembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - A Penitência

Um tinido estridente e incômodo. Um ruído ensurdecedor, infernal. Os quartos foram transformados em salas cujas paredes eram feitas de azulejos eletrônicos. As tevês cobriam cada centímetro de até então papel de parede azul marinho e de outro lado pôsteres adolescentes. A intensidade do brilho era esgotante, mas o pior era o chiado. Chiado que ia além de tímpanos e martelos, ondas de som que adentravam o cérebro e chocavam e chacoalhavam os neurônios.

De uma fresta na porta a mãe espiava descrente. O menino olhava de olhos exorbitados e sua pupila dilatada como que contida numa escuridão de uma eternidade sem luz. Ele parecia em transe. E reagia com uma lerdeza descomunal. A mãe só segurava em lágrimas a esperança de que aquela máscara de zumbi fosse cair. Mas não cairia.

Ele estava condenado a passar uma semana olhando para aquelas telas. Eram apenas riscos, elétrons chamuscando-se e implodindo. Aquelas imagens tanto fantasmagóricas. Eram granulados e ruídos.

A garota olhava atarantada e não menos zumbi. Os olhos sujos de lápis de olho corroboravam na perspectiva mórbida que apresentava. O caráter pálido e enfermo, sua pele transparente fazia com que as veias aparecessem, desenhavam um caminho todo frenético. Frenético era aquele lugar transbordado de luz.

A mãe fora julgada inocente.

"...uma pobre coitada desmerece sequer alguma consideração. Saia..."

Desmerecia... Eles mereciam, condenados... Que se tratava tudo aquilo afinal?

A mulher sobe as escadas até o sótão à procura de refúgio. As paredes estavam vazias. Não havia mobília, não havia mais nenhum ser animado nem inanimado. Vivo ou morto. Só os dois quartos, inacessíveis, e o resto era silêncio e vazio. E alienação.

As janelas foram tapadas com madeiras. O sol às vezes se mostrara por frestas e mal se sabia quantos dias se  passara. O sótão era tentador. Estender-se naquele chão e dormir, pois nem mesmo um pesadelo seria tão ruim.

 

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por Dani Takase às 22:31
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Domingo, 31 de Outubro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - O Veredicto (parte III)

O singelo benjamim aguardava ali, preponderante e em sua discreta exuberância, aguardava o silêncio de todos que já aguardavam reunidos na sala. A sala parecia pequena, pois tamanho era o acúmulo de aparelhos ali que já tomavam corredores e um sobreposto no outro para poder prestigiar o tão esperado veredicto.

Demorou certo tempo até que todos se ajeitassem e silenciassem.

O rádio − irremediável − soluça:

− Você é doida demais! Doida, muito doida!

Todos olham atônitos e o benjamim exige silêncio. Uma peculiar calma toma conta do lugar. Uma calma relativa, pois a atmosfera era cheia de dúvidas e tensão. O benjamim pigarreia e pede que os jurados se manifestem.

− Sobre o menino astuto, hiperativo, egocêntrico e pícaro, aqui presente sob a acusação de narcisismo, insipiência e dissimulação. Para tais acusações o júri o considera...

−... culpado! − completa o microondas como representante do júri.

− Espere, não tenho o direito de me defender? Direito de saber concretamente do que estou sendo acusado? Exijo provas! Exijo evidências!

− Não se faça de coitado. Não seja néscio, de suas atitudes sabe bem o porque recebe sua sentença.

− Gostar se super heróis e produções norte-americanas é crime?

− Crime irei eu cometer se continuar a escutar você. Segurem-no. − o garoto agarrado, atado e domado é levado até seu quarto que já estava preparado. Ao se deparar com a porta sente um frio que lhe sobe pela espinha e estremece o corpo. Entreabre a porta e espia, até que é atirado lá dentro. A porta é trancada e as atenções se dirigem a outro membro da família.

− Sobre a garota impulsiva e explosiva, aqui presente sob a acusação de desprezo, ignorância e pretensiosismo.  Suas falácias infames e agressões insolentes. − é interrompido por um grito para lá de estridente e melancólico, vinha do quarto do irmão, sem dúvidas. O benjamim continua com frieza − Para tais acusações o júri a considera...

−... culpada! − completa ainda o microondas.

− E quem são vocês para me julgar? Vocês não sabem de nada! Não sentem nada! Não sentem isso, uh! − ao pronunciar tais palavras, num pontapé atira um controle remoto contra a parede.

− Se você nos julga incapaz de sentir, sabemos que você sente! − diz a tevê alterada e chicoteando o fio da tomada na direção da menina, e acaba acertando a perna descoberta pela curta saia. − Então sente isso?

− Trambolho estúpido!

− Vadia ingrata!

− Ordem! − poderia ser até ser escrito em letras garrafais, foi um rugido monumental. O silêncio foi absoluto. A menina foi contida. − Onde foi que aprendestes essas palavras desrespeitosas? Nem de ímpeto podemos nos submeter a tamanhas calamidades de plagiá-los em suas fraquezas mais mundanas! Deixem que sejam os seres mais imundos da face da terra! Deixem-nos pensar que somos trambolhos, somos máquina, somos antônimos de vida. Eles nos tiram a vida, nos privam de emoções e sentidos, mas esquecem-se que nos deram o mais importante: a inteligência. Mesmo que artificial, inteligência qual nos permite recusar a submissão a seres tão obscuros e contraditórios. E é disso que se tratava tudo isso até agora! Levem-na.

A mãe observava tudo com uma desesperadora impotência. Seu plano de fuga fora por água a baixo. Acontecera tudo tão rápido. Era um fracasso. Agora se ouvia um grito ainda mais alto, claro e pertinente. Agudo e interminável − estremecera os tímpanos, mas permanecera em mente. A menina em seu escândalo denunciava algo de terrível. Qual era o castigo afinal?

 

aos ouvidos: Moriarty
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por Dani Takase às 23:59
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Domingo, 24 de Outubro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - O Veredicto (parte II)

A mulher carregava no rosto aqueles traços inexpressíveis. Aquelas características igualmente distribuídas entre os humanos. Faltava-lhe personalidade. Ela era simplesmente o cúmulo da normalidade, da pacatez.

O garoto era redondamente irritante. Era sedentariamente estridente. Era exuberantemente  chato. Era de uma chatice incontível.

A menina tinha traço irresistível de rebeldia. Esse traço lhe transbordava tanto que a deixava insuportável. Era um pouco de tudo que as pessoas odeiam, amontoadas numa só personalidade. E personalidade lhe sobrava. Jovialidade lhe sobrava. E por que tudo isso era tão insuportavelmente irritante? Insuportável é a palavra que lhe define e isso basta.

E por que uma apresentação tão tardia? Preenchendo perfis de redes sociais por eles. Não daria certo. São inomináveis. Seria até ofensa batizá-los. Seria até má fé de minha parte. Não por serem indignos a esse ponto, mas porque dignidade lhes sobra.

Ouviam-se apenas cochichos. O sol se fora completamente e a noite fazia com que a rua vazia parecesse ainda mais deserta. Não havia carros, não havia passos, sequer vida fora dali. Pássaros não cantavam, cachorros não latiam nem viravam latas.

Discutiam em silêncio ou algo já estava decretado, pois o silêncio era  absoluto e mortificante.

Não é qualquer silêncio. É aquele silêncio de se ouvir respirações dos poucos que respiravam, cada qual em seu lugar, trancado, sentenciado a nada mais que ouvir sua sentença. Em breve ou em infinitos segundos. Era tudo tão impreciso.

A mulher estava dócil, mas havia inquietude em seus olhos. Olhos severos.

A menina estava numa banheira sem sequer uma gota d'água. Seus carrascos eram o secador e o barbeador. Era irônico o aparente flerte entre os dois. Era irônico como todos os eletrodomésticos eram de uma humanidade infinda. De mãos e pés atados, de boca tapada. Parecia agressivamente inofensiva.

O menino estava no sótão, era alérgico a poeira e achava que seu  castigo já tinha sido decretado – passar o resto da vida espirrando até que fosse consumido pelo próprio espirro. Era bem possível. Esta era uma hipótese relativamente incoerente e proveitosa. Melhor que qualquer uma das possíveis penitências. O que mais poderiam lhe causar? Eletrocussão? Ora, que sejam mais originais ou criativos. Se pudesse gritar, lhes proporia um desafio. Que qualquer que seja a decisão que seja tomada com a eficácia de uma máquina e a audácia de um homem. Com o raciocínio mecânico, mas com a (in)sensibilidade humana.

Tudo partia de dois pressupostos: uma decisão e uma execução. Veremos.

 

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por Dani Takase às 23:59
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Domingo, 17 de Outubro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - O Veredicto (parte I)

O veredicto estava sendo discutido. Cada um esperava numa sala. A mãe fora a primeira a ser retirada e repousava desconfortavelmente em sua cama que continua sendo grande demais. Cama de casal parecia uma ironia para enfatizar sua solidão. Observava o quarto agora com certo carisma. Lembrava-se de coisas e sentia um leve aperto no peito de descontrole sobre a situação. Estava completamente perdida sob um cobertor pesado. Fazia um vento forte lá fora. A rua parecia deserta como nunca fora. O silêncio despertava uma agonia incômoda. Não poderia sair, estava presa, ali. O que decidiriam? Que espécime de pesadelo horrendo era aquele?

Olhava o teto. A lâmpada a cegou por um instante, mas seus olhos foram se acostumando com a luz. Era dia ainda, mas ela tinha pouca noção do tempo. Entrava um falso raiar de sol sob a persiana. Aquela luz forte a dopava. Fazia com que se lembrasse dos tempos de olhar o sol enquanto ia ao parque para andar de bicicleta. Enquanto as crianças circulavam, ela deitava sobre a grama verde e ainda cheia de orvalho. Lembrava de cada tombo, cada ralado que a prole adquiriu ao longo desses anos. Talvez até o menino fazer cinco anos. De lá pra cá tudo fora amnésia. Havia um vácuo no meio da história. Um período cego em que nada via, nada ouvia, nada sabia. As coisas aconteciam. Nada era memorável.

Ela se encontrava entre sentir falta e sentir culpa. Às vezes pensava ser melhor assim. A proposta era simples: cada um por si. Sem matar, sem morrer – vivam.

Ela se afundava no travesseiro e tentava enxergar contra a luz. Já tonta por causa da luz, desviara o olhar e vira na parede uma marca de giz de cera. Um rabisco ou uma obra de arte, depende do ponto de vista. A menina apanhara aquela noite. Ela desenhara um diabinho vermelhinho, um tridente, aqueles chifrinhos pontudos. Desenhara um anjinho que sorria indiferente ao diabinho. Era tudo muito subjetivo. Era um desenho de retas e círculos imperfeitos. Eram rabiscos. Mas a interpretação levava a crer que... Na verdade, psicologicamente queria dizer que... Aliás, o bacharelado em psicologia a fazia pensar que deveria ter desistido de psicologia e ido atrás do circo quando quis fugir. Ou dançado balé quando quis.

Sentou-se, abraçou as pernas e apoiou a cabeça na cabeceira, encaixando a orelha na parede. Paredes finas, paredes fracas, paredes vulneráveis a som, só tapeavam mesmo a visão. Ouvira lágrimas secretas. Lágrimas contidas que teimavam em sair. Tinha certeza de que era algum de seu gene. Tentar ser forte era proveniente do pai. Não conseguir, era dela.

Tentou imaginar o que teria acontecido caso continuasse a agir com o superprotencionismo de antigamente. Fora tão boa mãe, digna de cartões de dia das mães, de flores de dia da mulher, de café da manhã na cama em dia de aniversário. Mas tudo mudou quando resolveu se afastar. Sabia que fora sua escolha. Mas sua escolha poderia mudar! Poderia mudar naquele momento.

Um plano mirabolante perambulava em sua mente. Arquitetava a fuga secular! Estava sendo observada pela tecnologia criada por seus iguais. Mas seria a criatura capaz de superar a genialidade do criador?

*****

O plano estava formulado. Havia de esperar e se controlar. Confiava mais que nunca em si mesma.

Talvez fosse melhor esperar a chamada final, a hora que havia de ser dado o veredicto. Era só esperar...

 

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por Dani Takase às 23:59
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Domingo, 10 de Outubro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - Desistência (ou Rendição)

 A mulher desesperadamente ajoelha-se diante do púlpito e seus turvos olhos enfadonhos imploram:

– Deixe-nos ir! Isso é um ultraje! Eu que nunca nada fiz contra qualquer ser por mais desprezível que o seja!

– Isso acontece, minha senhora, porque dentre todos os animais o mais desprezível é você. – diz o microondas com um remorso entoado em sua voz trêmula.

– Eu fui mãe aos dezenove anos quando mal sabia o que era amor, me casei a força, fui infeliz por dezesseis anos, lavando, passando, cozinhando, fui trocada por uma secretariazinha medíocre de dezenove anos que me remete a mim mesma e como teria sido se tivesse um pouco mais de audácia na vida. Por mais clichê e copiada que minha história apareça virando enredo de novelas podres e filmes insossos, não dependo de assisti-los para que eu me sinta melhor ou pior ou menos medíocre como já disseram. "Olhai que de esperanças me mantenho!", o que hão de me tirar? Amor? Paz? Nada disso tenho! Nem esperança nem sobriedade. Preciso de conforto, talvez carinho, mas sou o que? Medíocre demais pra recorrer a qualquer estranho que me leve pra ver um filme chato e me console depois com seu calor. Medíocre, medíocre! Me encontro com trinta e cinco anos, tenho dois filhos, estou apenas cansada demais para tentar arriscar alguma coisa que dará errado. Me consolam os filmes, novelas e telejornais pois me lembram de que estou viva. Não sou a atriz que decora as falas, não sou a vítima do estupro do telejornal, muito menos a morta por qual choram os órfãos. Sou real, muito mais real que qualquer um deles. Sou viva e estou relativamente bem. Bem em minha depressão, bem em meu conforto natural e na barreira que construí com o mundo. O supermercado em que vou para suprir minhas necessidades é o contato mais humano que tenho com a vida. A caixa sorridente que me fornece o custo da compra é tão viva! O carrinho de compras transbordando aquelas ofertas imperdíveis que vi na TV. O supermercado com um neon apagado, uma letra R qualquer, fora consertado, agora fosforesce à noitinha. Volto pra casa, ligo a TV e novamente vejo minhas novelas e mentiras. Satisfaço-me assim. É a zona de conforto ideal. Não estou propensa a nenhum perigo. Não me sujeito a qualquer sorte. Sorte é para os fracos. Eu sou uma fraca tentando me manter da força. Perdoe-me por um parágrafo tão intenso, por tantas palavras juntas, por mal ter respirado enquanto vos falo! Sinto que meu tempo se esgota e estou apenas sozinha demais e cansada demais para tentar me reconciliar com a vida que tanto tentei apreciar. E deprecio com todas as minhas forças.

– Tirem essa louca daqui! Agora!

– Deixem-na em paz! – diz lacrimosa a geladeira, que se derrete e degela, mas parte em defesa de sua adorada ama. E não é só ela. Também o fogão chorava.

Não havia naquela sala ser que não houvesse ao menos se emocionado. Talvez um. Insensível. A filha parecia um monumento de pedra. Até os objetos tão inanimadamente supostos a não demonstrar qualquer expressão estavam visivelmente comovidos.

A geladeira parte incontrolável para cima da adolescente que estarrecida se afunda na cadeira de escritório. A geladeira ponderosa em frente a menina, sua cauda parte cortando o vento na direção da menina, e lhe atinge a coxa. O barulho é de súbito doloroso. Pode ser sentido apenas pelo estralo. O chicotear lhe abalou os ânimos, foi como um choque de consciência. A marca não fora tão superficial que ficara apenas na pele, foi além, no ego. A menina começa a chorar, lágrimas desesperadas, ainda com os olhos esbugalhados. Mas não gritava. Sequer gemia. Talvez seu olhar pedisse perdão. Redimia-se? Ou era ilusão. Era dor, apenas.

Arrastaram a mãe para o fundo da sala, não mais perto de suas crias. A primeira ré já havia sido inocentada. Ou abdicada de punição. Sofrera muito, não? Ou castigaram-na assim. Imunizando-a mantiveram-na longe de seu maior desejo: de que a fizessem sofrer.

 

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por Dani Takase às 11:39
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Domingo, 26 de Setembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - Neste mesmo canal, nesta mesma hora.

– Vamos dar a voz a alguém que saiba o que fala. Você, mulher – aponta, ironicamente e chama a chorona. – desatem-na.

A mulher caminha até perto do púlpito de olhos estatelados e atônitos, de súbito já está de joelhos, ouve-se um cochicho:

–...livrai-nos do mal, amém – e um grito – Vos imploro! Libertem-nos, tudo isso só pode ser um pesadelo, eu nunca fiz mal algum a alguém, minha vida vem sendo um mártir e os dias que vivo são um castigo, mas o que lhes dá o direito de nos manter em cativeiro? É nossa casa, é petulância sua!

– Como ousa?

–...perdoe-me! – diz se recompondo, não era de hábito que reagisse explosivamente, era num geral de um comportamento econômico de expressividade. Inexpressiva era a palavra que melhor a definia. Indiferente é a melhor maneira de retratar a reação das pessoas quanto a ela. – ...só tentei...

– Apenas responda o que lhe for perguntado. Baseie sua posição compondo argumentos com as novelas que assiste enquanto se contorce de remorso por não ser feliz.

– Eu... Não sei. Novelas? Argumento... O que quer de mim?

– Diga-nos... Por que as novelas são tão estereotipadas? Ou por que as pessoas estão tão estereotipadas? Por que a vida? O amor? A arte... – desengasgava, o videocassete, essas palavras.

– Já entendi. Deixe-me ver. Não acho que novelas ditam alguma coisa, seja a moda vestida ou o próprio comportamento.

– Não ditam, inspiram. Fornecem as ideias e os de mente fraca apenas acompanham.

– Não, não! Veja bem: eles de certo modo representam realidades paralelas.

– Ou a partir delas acontecem realidades paralelas?

– Bom... Partindo de certo bom senso, as pessoas muito aprendem com o enredo e são lições para toda uma vida.

– Dois amores, traição, inveja, cobiça, sexo, filhos fora de casamentos, tristeza, depressão, violência, mentira, morte. Bons valores. Ah, desculpe-me, acho que conheço essa história de algum lugar...

– Mas – em soluços e gaguejos, as lágrimas já prestes a lhe escorrer os olhos – nada que disser me afetará. Continuo convicta de que assisto por entretenimento.

– K-ham, se querem ouvir minha tese – de garbo e elegância surge uma tevê (mais uma!) –  vos digo: novelas são divididas em categorias mexicana, teenager dreams, novelas infantis, horário nobre vulgo horário insalubre, ficções científicas, novelas de época e por último, mas não menos importante comédias pastelão com um parrudo forte e que desfila seminu no enredo. Por vezes há combinações entre essas categorias que combinam em uma rês ainda pior e mais vergonhosa.

– Defina-as, por favor. – pede o liquidificador tão participativo.

– Novela mexicana: em síntese, personagens de nomes compostos, uma dublagem mal feita, um enredo charlatão, amor, paixão, traição, intriga, um galã moreno, uma mocinha de lábios vermelhos e curvas acentuadas. Alguém sempre fica doente, alguém sempre engana alguém, alguém sempre é contra o relacionamento. Termina no casamento, na lua-de-mel, na gravidez.

Sonhos adolescentes, ah, patético. Um colégio de fofocas, um grupinho parcialmente do bem, um grupinho extremamente do mal. Bullying – que palavra modista. MODA! Música, filhos de então artistas! Escolas de interpretação para alcance do horário nobre. Enredo com vinganças, conflitos, disputa de popularidade. Incrível que mesmo se passando em escolas, não parecem aumentar de conhecimento, só a taxa de natalidade.

Ah, as novelas de criança! Nomes doces, um mascote felpudo, amizades eternas. Até aí conseguem encaixar intriga e inveja, mas quem liga, é tudo tão fofo, angelical...

– Mexe, mexe, mexe com as mãos, – a atenção foi desviada – pequeninas! – todos encaram o rádio – Que foi? Não pude resistir.

– Mas eis que nos resta: horário nobre. Vergonha, oh, céus. Listar tantos valores negativistas chega a ser cansativo. Mas é o que mais audiência tem, talvez por mais se aproximar duma realidade. Não duma realidade concreta. Duma realidade idealizada onde você quer sofrer, para achar que no final tudo dá certo. É quase um conto de fadas, mas moderno e impuro. Mas quem disse que contos de fada são puros...

Ficções científicas, duas palavras: mutantes, fim. Novelas de época, valem pelos investimentos em figurino, cenário e trilha sonora. Comédia pastelão: já falei do parrudo seminu? Então sem mais.

– Baila con mi cutara por aqui por alla... – num ritmo caliente o rádio aqueceu os ânimos.

 

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por Dani Takase às 23:59
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Domingo, 19 de Setembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - A Revolta da Revolta (Parte II)

- O que mais sua tão preciosa televisão tem a nos acrescentar, guri?

- Ah! Vocês estão tão velhos que mal digeriram metade das coisas que falei!

- De digerir ele entende - disse a geladeira e todos caíram no riso -, entende muito bem! Todas as noites ia ingerir e digerir alguma coisa lá na cozinha. Madrugada a dentro só se ouviam os dentes manducando coisa qualquer.

- Silêncio - o benjamim se esforçou, mas mal aguentava segurar a própria risada, muito menos a dos outros. - Fale então o que te encanta no videogame que tanto te vicia...

- Vício é uma palavra muito forte. Aliás o videogame seria algo mais intenso que a TV, pois eu não só admiro o personagem... Eu sou o personagem! Eu interajo! Eu me admiro, mesmo não sendo exatamente eu... É um "eu" com poderes!

- Poderes? Barba, tatuagens, carros e armas. É diferente de poderes.

- Eu aprendi a tocar guitarra e bateria!

- Grilharia!

- Fui várias vezes campeão dos mais diversos esportes: futebol, basquete, vôlei, boxe... Até surf e skate!

- Se você se preocupasse tanto em ganhar prêmios na sua vida concreta talvez você pudesse jogar de outro modo que não fosse como a bola com que tanto se assemelha...

- Aprendi várias línguas. Nunca sequer fiz aula de inglês e...

- Até onde você acha que vai com as palavras "start" e "game over", meu filho?

- Up, up, down, down, left, right, left, B, A, start, just because we use cheats doesn't mean we are not smart. - o rádio e suas interrupções alegóricas.

-...e até japonês.

- どのような途方もないばか。- o karaokê balbucia e aqueles tais eletroeletrônicos propensos a vender pastel na feira entendem e julgando-se pelo tamanho das risadas fora uma piada e tanto.

- Baka! - repete o microsystem.

- Esses jogos, acreditem ou não, me fizeram uma pessoa mais lógica e competitiva, isso refletirá de forma positiva no meu futuro acadêmico e profissional. Sempre almejando o melhor! Ser o primeiro!

- Não me admira que não tenha amigos... Os únicos que vinham aqui são aqueles mais pobres que tinham inveja de seus videogames de todas as gerações possíveis, tsc.

- Jogos que estimulam o raciocínio, a inteligência, o combate!

- Você só conhece esses jogos sangrentos da atualidade, não chegou a conhecer os verdadeiros clássicos - choraminga um Megadrive solitário - Pacman, Sonic e... é hora de brincar de telefone sem fio, meus caros! - se empolga o Megadrive que cochicha algo para o microsystem e pede que passe a informação. Ouve-se em surdina na sala apenas risinhos e os objetos continuam cochichando até que um daqueles rádios paraguaios com lanterninha na ponta cochicha na orelha do garotinho:

- UstedtusabesquieneresMarioperguntante?

- Mario o quê?

- Que te pegaste detrás del armário! Jajajaja - até a risada ainda era paraguaia, risada que se alastrou por todo o recinto.

O garotinho foi ficando rosado e vermelho e roxo de raiva até que num urro desmanchou-se em lágrimas. De vergonha? De raiva? Não se sabe. A humilhação fora tanta... Ataram-no, então de volta à cadeira. Tiveram de lhe tapar a boca também, pois desembestara a abrir um berreiro. Sessão tortura psicológica - over

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por Dani Takase às 23:22
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Domingo, 12 de Setembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - A Revolta da Revolta (Parte I)

Tudo estava muito calmo, pacífico demais. Mas o gordinho de olhos atônitos se remexe imperceptivelmente na cadeira e se livra dos grilhões que o atam e se rebela:

– Você acha que pode me deter? Está muito enganado! Aprendi com o 007! – mostra a língua – e isso aprendi na MTV – só imagine o gesto obsceno que envolve um dedo, sim, ele o fez, seguido de exclamações e palavrões.

– Detenham-no! – o benjamim soava tão preponderante, mas lhe caia bem essa função.

Cabos e fios corriam e escorregavam pelos rodapés casa a fora, mas o menino esquivava rápido demais. De gordinho a atleta, era uma mudança e tanto. Desapareceu.

– Você sabe que te encontraremos! O venceremos pelo cansaço. Você deve estar ofegante e nós podemos ouvi-lo, senti-lo e... A-HÁ!

– Um... acordo... acordo! Que me diz? – suplica o menino enquanto arrastado de volta a sua cadeira. –

– Peço apenas por voz! Deixem que me manifeste!

– Não acha que se manifestou o suficiente?

– Você tem exatamente 10 minutos! E não reclame se for interrompido.

– Isso é uma injustiça... Hm, deixe-me ver... Por onde começar? Ah, vocês reclamam tanto que não temos cultura com  o tempo que desperdiçando jogando, assistindo filmes sangrentos, terror, comédia, sexo, drogas... Bobagem! Aprendemos tanta coisa! Vejam só os...

– Isso inclui os palavrões e os gestos que você nos ensinou a pouco? – algum atordoado interrompe bruscamente.

We only have got four minutes to save the world – interfere o rádio.
– ...os desenhos animados! São cheios de valores! – continua o garoto, insensível aos comentários desnecessários – Sempre há um herói.

– É, assim como nas guerras.

– Ora, mas heroísmo é digno de admiração. Veja só, combate ao mal! Poderia passar horas citando aqueles que desperdiçam a vida...

– ...fictícia...

–...a vida para salvar as pessoas, a pessoa amada, a cidade, o dia, o mundo, o universo!

– Oh, quanto patriotismo! Sacrificaria você a sua pança gorducha para alguma coisa?

– Há também cultura, meus amigos! Música!

–... Só besteration-tion, besteration! – o rádio estava incontível.

– Arte! História! Ciência...

– Programas bons que começam as 5h da manhã e terminam antes de alguém normal possa estar acordado.

– ... Notícias! O que acontece ao mundo, todos podem saber, a mídia oferece!

– Tão confiáveis quanto essa sua fala sibilante e incômoda.

– Aprendi muito na minha infância...

– Crianças de hoje em dia nem sabem cantar cantigas de roda!

– Sabemos o suficiente!

– Cante!

– Atirei o pau no gato-to, mas o gato-to, não morreu-reu-reu, D. Chica atirou... Não? Espere, estou confuso. D. Chica brigou com a Rosa, debaixo de uma sacada... Despedaçada? Despetalada! Isso!

– Você sabe por um acaso o que é pião?

– O de rodeio?

– Meritíssima, com todo o respeito, não eram apenas 10 minutos? O tempo não se estourou?

– Não o impeça, não vê que está nos ajudando? Deixe-o prosseguir.

 

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por Dani Takase às 23:59
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Domingo, 5 de Setembro de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - O Circo da Democracia

– Oh, não! Mais uma TV? – o barbeador herdou a impaciência do antigo dono.

– Mas é claro, o que me impede de depor? Juro que é de fundamental importância o que tenho para dizer, meritíssima.

– Prossiga.

– Meu companheiro muito vos disse sobre a violência, mas venho lhes propor o esclarecimento de vossas dúvidas, o que lhes parece? Vocês indicam o que querem saber e vos explicarei sem cessar. – mas  ora, vejam só, é a TV da cozinha! – O que me dizem?

– O que me diz então, companheiro, de discutirmos sobre política? – disse a geladeira soltando uma baforada fria.

– Política, minha cara? Então dissertemos, companheiros, sobre o humor pastelão que é a política de hoje, companheiros! Oh, que vergonha! Calafrios me causam os cinquenta minutos que sou obrigado a emitir a pateticidade em que se transformou o horário político. Eles se enfrentam como cães brigando por território. Talvez esse seja o problema: lutam por território e não por ideais. Que me perdoem os cachorros, desmerecidos dessa comparação ínfima. Esses homens – e mulheres – disputam como tais, com as características próprias dos seres humanos: a capacidade de mentir, enganar, ludibriar. Talvez até haja algum fruto bom dentre tantos podres, mas como saber diferenciar? Parecem iguais. Uns acusando os outros até que aparece um palhaço que esculhamba com tudo de vez. Isto é uma vergonha, companheiros! Não há o que fazer... Ir à favela abraçar os pobres? Vasculhar a vida particular dos oponentes e tentar achar uma coisa a que possa se apegar. Procuram defeitos, defeitos e mais defeitos até que se vêem diante dum espelho, do próprio reflexo. Demoram a perceber que são tão iguais. É assim que a política está. Homogênea ou lúdica demais. Distribuir pão é um pouco ultrapassado, agora a moda é falar que vão distribuir computadores, notebooks e internet de graça. Personalidades que por si só não demonstravam menor respeitabilidade agora são candidatos a cargos públicos – e vencerão. Apesar de todo mau-caratismo, toda má-fé, vencerão. Por senhoras como essa que não acredita em mudanças, por adolescentes desinteressadas como essa, ou crianças como esse pirralho que convencem o pai a votar no da roupa mais colorida, melhor trocadilho ou melhor jingle...

– Vote com prazer, k-kham, – uma voz muito promíscua e devoradora sai dos alto-falantes – Desculpe, não pude evitar – desculpa-se o rádio muito sem graça.

– ... Sim, é um exemplo, mas, por hora, acho que devemos parar com esse discurso. De que adianta, não votamos mesmo.

– Se votássemos não faria a menor diferença – suspira um aspirador de pó, fadigoso.

– É aí que você se engana, companheira. O que estamos fazendo aqui neste exato momento? Fazendo a diferença. Não acha que é o que poderia acontecer? Não sei se por comodismo ou por subestimar-se demais, mas as pessoas – e até mesmo nós, objetos – esquecemos de nossa importância individual.

– Mas afinal, que cenário é esse político que tanto  fala?

– Um ventríloquo, um hipocondríaco, um burguês, uma ambientalista, um cristão. E esses são só os principais. Ainda há os ladrões, as prostitutas, os palhaços, os aspirantes a artistas, os filhos de artistas...

– Para cara de pau? Peroba neles! – o rádio interrompe novamente – Desculpe, não pude me conter.

– ... Debates apaixonados! Ideias descomedidas e exorbitadas! Síndrome de perseguição e falsos aliados! Combinar cor de gravata com ideais simbólicos, jogar estatísticas e dados – não a seu favor, mas contra seus inimigos adversários. Chineses invadindo o comércio, proibir alimentos gordurosos, combater a criminalidade, as drogas, o desmatamento, a pobreza, a doença, os chineses! Estou ficando confuso! Conciliar meio ambiente e desenvolvimento, hospedar o mundo inteiro com futebol e depois trazer a Grécia inteira! São tantos ideais, tantas anomalias, tantas discordâncias. É tudo muito desconexo. Acho melhor encerrarmos por aqui, por hora. Cruzar os dedos que não tenho para que não nos coloquem em mãos erradas. Ajudai, ó, bigode grisalho de vestes coloridas, a descobrir afinal de que é que se trata politicagem, pois mesmo depois de anos de experiência não entendo vossa democracia.

 

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por Dani Takase às 20:54
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Domingo, 29 de Agosto de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - Um Depoimento Apaixonado

Depois de muito aplaudido o televisor retira-se dali onde já se encontra – sob o olhar atento de todos – um computador tanto quanto antigo. Parecia cansado. Dão-lhe a palavra, ele pigarreia e dá início:

– Há alguns anos fui o motivo de muita alegria, objeto de entretenimento. A internet ainda era de difícil acesso o que me tornava simplesmente uma rodada de campo-minado e muita, muita paciência. Paciência eu tinha, mas me faltava memória. Os maus tratos me levaram ao retardamento de minhas funções. Fui ficando lento e birrento até que parei de responder. Tenho muito a vos agradecer, afinal vocês me proporcionaram os melhores momentos da minha vida... Quando...

– Você é mesmo uma testemunha de acusação?

– Garanto que o que digo é de fundamental importância. Continuando... Os melhores momentos da minha vida... A internet enfim chegou e assim conheci o mundo! E principalmente, me conectei a uma doçura de máquina, uma japonesa. Ela é bilíngue e agora está praticando o português. Toda  moderninha! Confesso que o que mais me faz morrer de amores é seu design touchscreen, toda sensível. Estou totalmente apaixonado, e ela corresponde. Vocês chamam de namoro virtual, mas para mim, nossa conexão é mais intensa. Vocês chamam de créu velocidade cinco, eu chamo de conexão a 100mbp/s. Admito que menti. Disse para ela que eu estava usando proteção, que eu não tinha vírus algum, que não havia nenhum problema, mas aí o que acontece? Eu estava infectado! E eu passei para ela! Eu resisti, mas ela era tão frágil... E a culpa é toda de vocês! Seus... Seus!

Foi arrastado para longe do púlpito, estava possesso. Burburinhos ressoavam num ruído chato e incômodo.

– Silêeeeencio! – ordenou alguém que provavelmente após sussurrou "sempre quis dizer isso".

O discurso não foi tão comovente e empolgante quanto o da TV. Talvez até um tanto desnecessário, mas havia uma melancolia sincera em suas palavras.

 

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por Dani Takase às 14:18
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Domingo, 22 de Agosto de 2010

A Farsa dos Eletrodomésticos - o inquérito

– Os reféns e/ou réus estão prontos, chefe.

– Traga-os.

Amordaçados e amarrados em cadeiras de escritório estavam mãe e filhos.

– Que bom que essa cadeira tem rodinhas – ironiza um videogame que empurra a cadeira onde se senta o menino.

– Argh! – se limita a resmungar o garoto.

– Me respeite, moleque! Te forneci muitas horas de diversão. Acho que está na hora de escutar umas boas verdades! – diz o videogame já alterado.

– É mesmo! Seja lá como sou decodificado, mas faz cócegas! – diz um Cd de jogos.

– Você ao menos tem a sorte de não se ver girar! Se eu tivesse como vomitar, seria esse o momento.

– Girar? Além de cócegas fico todo enjoado e tonto, você só observa e fica fazendo pose e...

– Chega! – interrompe bruscamente o "chefe". Curiosamente o chefe não tem muito mais que cinco centímetros de altura, sabe-se lá como, mas impõe muito respeito. É um benjamim acinzentado com três ou quatro entradas. – Estamos unidos aqui com um propósito! Propósito aquele que vale o esforço qual estamos sendo submetidos. – Sua voz era de um grave e incentivador. Faz todo sentido ser o líder. Mas a empolgação é a de político em comício, aí vem um discurso que talvez tome muito tempo...

O menino ouvia tudo de olhos vidrados e arregalados, como ficavam enquanto jogava madrugada a dentro. A mãe afundava-se na cadeira com o olhar desesperado de quem não entende o que se passa. Já a adolescente tinha uma indiferença mórbida; talvez fosse só pose, que seja.

Após um zunido ensurdecedor o microfone do karaokê já estava plugado em gigantescas caixas de som, numa espécie de púlpito onde ocorreriam os depoimentos.

As tevês se propiciaram a ser o júri – isso porque se julgavam experientes no quesito julgamento, levando-se em conta o número elevado de séries e programas de âmbito policial.

O benjamim assistia tudo atentamente da tomada mais alta, de onde nada lhe fugisse do olhar vígil. Os réus estavam posicionados de modo que poderiam ver cada um dos acusadores – até o barbeador elétrico do marido se encontrava com olhar indagador.

Just for record the weather today is quite sarcastic with good chances of  A: Indifferences and B: Desinterest in what the critics say. It's time for us to take a chance, it's time for us!

– Bravo! Bravíssimo! – diziam ouriçados uma batedeira e um liquidificador louvavam às belas palavras do mycrosystem.

They said it was fabulous – transmitiu o Mp3.

Oh, thank you, my darlings. – ele pouquíssimo entendia o que a maioria dos ali presentes falavam, já que ele era estrangeiro. Dentre uma maioria bem nacionalista, alguns sem conseguir evitar o sotaque espanhol rio-platense, alguns possuem um inglês "whazup" ou robotizado. Há também aqueles aparelhos aptos a comer peixe cru – ou comer pastel na feira, genious.

 

*****

 

Um televisor recém-chegado ao invés de servir como júri, foi convidado a ser a primeira testemunha a depor.

– Eu vejo nas faces desfiguradas e vozes computadorizadamente modificadas palavras e emoções frívolas e rancorosas, dolorosas, sofridas, devido a tamanha perversidade e crueldade inspiradas em programas violentos, sangrentos e maléficos. Vejo seios descobertos como se fossem educativos... Vejo.. Ver não é o verbete mais apropriado: transmito. Recapitulando: transmito fatos manipulados como se fossem as mais puras verdades... Universos paralelos para que vocês emaranhados de veias vejam o sangue escorrer de meus elétrons. Violência?

– Vi o len...ço? – gagueja um radinho made in China, sem quase nada compreender.

– Violência, estúpido! – continua a tevê – Nas minhas transmissões tudo é violência! O futebol é violento, os desenhos violentos, o humor violento, os amores violentos! Logo, tudo que é motivado pela paixão será motivo de guerra! Afinal,  há uma coisa que aprendi nos canais que explicam a vida selvagem: é sempre o maior predador que é o rei da floresta.

aos ouvidos: London Beckoned Songs About Money Written by Machines - PATD
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por Dani Takase às 03:56
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