Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

... do esquife de mogno, da foice e da madressilva.

Não era um esquife de luxo. Madeira boa, acaju. O tom avermelhado chamava toda e qualquer atenção em meio a tanto negro e tanto luto. O clima obscuro era construído das mais diversas percepções sensoriais: o cheiro da parafina que sai das velas lacrimejantes; os soluços, lágrimas e lenços úmidos; café imerso numa atmosfera de diversos odores; inclusive o morto que já fede.

É dia. E ainda assim velas. Janelas abertas. Luz solar. Brisas frescas. A manhã respira. O morto não. E por que velas?

O café também é luto. Mal é adoçado. Açúcar branco não respeita o luto. O café veste preto e desce amargo. Amargura para enfrentar a dor da partida.

- Quem é, mamãe? - uma menina de vestido preto, olhinhos azuis e cachinhos ruivos (segredo-vos: não inteiramente de luto), puxa a saia da mãe que simula choro.

- Tia avó do irmão do marido de sua prima, meu bem. - disse a afagar-lhe os cabelos ferrugem com uma mão, levando o lencinho aos olhos úmidos com a outra.

Crianças, quando realmente crianças, encaram a morte com inocência. A observar o defunto. A desejar-lhe que pisque os olhos, ou que respire. E a esperança da descoberta do século, gritar: está vivo! É só prestar atenção. Concentração. E... Decepção. Mortinho. Mortinho da Silva e todo eufemismo, por mais grotesco que seja.

O morto permanecia imperturbável. A sensação de repouso profundo, de sono pesado, descanso eterno. Ainda que a pele acinzentada, fria. A seriedade posta e imposta. Olheiras que sugam os vestígios de vitalidade.

Ah!, aos vivos só faltam as moscas. A verdade imortal: começar a morrer a partir do momento em que se nasce.

- Pois, diga: a morte vem de capa preta e foice à mão? - o maquiador de defuntos(?!) monologava. Monologava, mesmo se dirigindo ao morto, pois esse, ainda imperturbável, não respondia. Mas a resposta vem de algum lugar - do além.

- E, que diabos! Qual inferno, purgatório, céu, reino de Hades! Qual! Cada um vai para o inferno que deseja. Minha alma espirra em alergia a esse pó. Não me dava ao luxo dessas frescuras nem vivo. Agora morto? Batom?! Mas qual!

- Agora está mais coradinho! Faço milagres! - orgulhava-se e contemplava a obra-prima.

- Milagres num morto? Vá passar purpurina em outro! - o eco do além se propagava no salão - Por que não me cremaste, mulher? Oh, céus. Aprisiona-me a algo. Mande-me ao inferno, mas me livre de vagar. E se existe alma?

Cai a noite. O maquiador esquece de seu feito. Os entes queridos velam por seu amado. A luz pálida das velas é intrínseco ao espetáculo. No fundo a alma, daquele que nem acreditava que a tinha, temia por ser aprisionado. O cheiro de mogno era agradável. A sete palmos debaixo da terra, seria devorado. Reviveria no metabolismo de qualquer verme que putrifizera seus restos.

Reviveu na madressilva que, não importa o tempo, ele não morre, envolveu sua lápide. Inscrição na lápide - belo(?) epitáfio: alguém que soube viver a vida.

Um efeito da madressilva, que agiu como erva daninha, foi cobrir parcialmente a sentença. Alguém que soube.

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por Dani Takase às 01:42
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Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

... de casos de vida ou morte.

Quão frágil é a vida? Somos um delicado e complexo emaranhado de hemoglobinas, leucócitos e outros nomes engraçados envoltos em um maleável plástico de características. De tão iguais nos tornamos diferentes.

obs: Algo me disse: "Não confie em uma dócil rúbia que lhe pergunta as horas. Ela te observa desde que entrou". Cale-se subconsciente. Estranhos são tão confiáveis quanto você.

Histórias que comovem. Não é o sangue, o quanto de sangue, como o sangue, mas por que o sangue? O importante não é quantos ossos se quebraram ou quais quebraram-se, mas qual o motivo dos ossos quebrados?

obs2: Sentar-se tupiniquimente, cantarolar em outras línguas, escrever à 60km/h e apontar um lápis estridentemente me torna o emaranhado de hemoglobinas mais complexo deste ônibus. Não que seja de fatal importância, estou seca e sem graça demais ultimamente para me importar.

Medidas desesperadas de acabar com o sofrimento, talvez seja parando de pensar nele, mas não dessa forma tão trágica: parar de pensar - no sofrimento, nele, nela, em tudo.

obs3: "Queria entrar no Orquídeas e pegar um trânsito caótico, passar do ponto e ir parar sabe-se lá aonde", era o que eu tinha em mente antes de entrar ali, "somente em meio a essa multidão de plásticos maleáveis é que me sinto só e me sinto eu mesma."

Eis que o que nos difere é a forma de pensar. Infortunamente há pessoa que acabam com os emaranhados de hemoglobinas, os plásticos maleáveis e a maneira de pensar alheia - sem se esquecer os que desesperadamente drasticamente tiram isso de si mesmos.

obs4: A maioria das pessoas que passam por aquela porta são mulheres, estranhamente, no Orquídeas somos maioria - o #555 logo ali.

A vantagem de acabar com o isso alheio talvez seja o consolo de permanecer com seu isso. Já a vantagem de tirar o isso de alguém permanece uma incógnita absurda, mas não seria consolo para alguém algum.

obs5: Seria desleal usas essa palavra, mas o fato de um quase psicografar essas palavras, pura osmose. Sorte de quem lê apenas os caracteres padronizados, pois o escrito farmacêutico e rasurado tão somente eu compreendo, todas as minhas intenções.

Apesar de uma história tão obscura não é sobre a dor que isso se trata. É inverno, mas nem está tão frio assim.

obsperdendo as contas: Não estou mais em Orquídeas ou em nada que soe tão poético. Tão sozinha quanto antes, mas não tão complexa.

Não é questão de ter amor, dar valor, sentir a dor - rimar com or e colocar diferentes vogais temáticas. Desistir é uma palavra que define muito bem essa sensação, mas enfatidicamente falando é a maneira fraca-frágil que o maleável hemoglobínico emaranhado plástico pensante encontra para acabar.

obso último: Não sei se era importante que soubessem de minhas observações instantâneas. Talvez no pensamento elas ficassem melhor colocadas, mas elas quisaram saltar para o papel. Agora preciso de um final.

Na sombra a sensação térmica era tão fria quanto essas palavras. Debaixo do sol já não era a mesma coisa. E o sol já brilhava demais. E o meu sol não é o mesmo sol que todo mundo vê.

 

post scriptum: A carência do meu eu está muito enfatizada e esse é o marco dessa necessidade. Marco final. Sem "eu", "me", "mim" por um bom tempo. Dei a eles lugar o suficiente.

 

aos ouvidos: PATD, Raul Seixas, VDO, VE.
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por Dani Takase às 02:22
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