Sexta-feira, 10 de Agosto de 2012

Solilóquios II - O Marginal

Quis ser marginal.

Sentou sobre o muro, num pequeno vão: ao lado do portão, entre o arame farpado, a cerca elétrica e os cacos e garras afiadas da fortaleza. Quis. Por querer, fez-se. Era um marginal. Sorria e assobiava, gatuno? Não, apenas sorria. O muro era encardidamente branco. Ou era daquele tom de cinza tão urbano -- cinza-cocô-de-pomba, cinza fuligem, cinza urina dos cachorros, vira-latas e bêbados, cinza anúncio de búzios, cinza anúncio de publique aqui, cinza tão puro e simplesmente sujo do branco.

De sua marginalidade escapava poesia. Era marginal, naturalmente apolítico -- como todo humano, como todos os homens e por isso lutava. Fora criado num ambiente naturalmente a+humano, a letra a negava muitas vezes. Lutava com a palavra e contra ela. Dentro de sua cabeça e no muro, lutava. Guerreava contra sua própria pobreza. Era pobre sua alma, felizmente, porque nunca enriquecera.

Riscou no muro: ao lado do encanamento, entre a janela, o tijolo mal pintado e o azulejo que marcava o número da casa. Riscou ao subir, apenas seu passo. Com a sujeira do chão nos pés, sujou como se o muro fosse chão. Não via problema em ser marginal: sorria.

O que queria daquela vida? Precisar é preciso, e precisava tão pouco. Precisamente preciso. Pontual. Lá de cima observava quieto, e gritava por dentro. Pra quem? Pra rua que encontrava a avenida e desaguava no mundo, delta das ruas onde desembocava os esgotos. Dava tudo no mesmo. Seguia a pipa que dançava no céu. Não a achava livre. Uma corda a prendia na terra. Por isso estava irremediavelmente humana nos céus. Enroscou-se na árvore e caiu no telhado da casa do muro dos cacos. Cada coisa pertencia a outra para virar coisa só. Pegou a pipa, desceu e cortou a mão no caco.

Ao lado da pegada e entre todos os elementos tão dignos do muro deixou a marca vermelho rubro de sua mão. O escarlate de sangue escorreu tão vivo na parede morta que por um instante permaneceu humana. Se fora humana, padeceria.

A parede sorriu e foi embora manchada de sangue com sua pipa.


por Dani Takase às 14:46
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010

... da cegueira da visão.

O Início.

Voava. Voava rápido sem sequer sentir o vento, afinal o vento o era. E como vento soprou em todos as direções. Cessou de flutuar e caiu, caiu naturalmente como pedra que cai. Cai e chega enfim ao chão. E acordou. Acordou e sonhara.

Logo que acordou, sentiu-se incompleto. Sentiu-se em parte vazio, em parte cheio demais.

O Meio.

Como se lhe faltasse algum componente; fosse  terra, fogo, água ou ar. A terra já era pó, o fogo já queimava, a água já secava e o ar já lhe faltava. E quase morto sentiu-se vivo, mui vivo, intensamente.

Da mais fúnebre escuridão é que a menor faísca torna-se raio de luz. E é em meio da mais ardorosa luz é que uma sombra pode vir a tomar forma. Antíteses que coexistem; sozinhas, subsistem. Dependências irônicas. Palavras vazias de nada valem. E o tudo. E o nada. A parte pelo todo, essa independe. Compreende? Talvez você não entenda.

Gramaticalmente a conjugação do verbo ser, para que faça sentido, pede por um complemento. A gramática exalando a complexidade do ser. A gramática conspirando com a essência do eu. Eu sou.

E o Fim.

Viver de perguntas é viver tentando o saber. Respostas sacrificam a entonação e o ponto de interrogação. E a fé questiona respondendo; responde questionando. Mas não deixa espaço para dúvida. Irracional. Mas entre dúvida e certeza: eu sou.

Eu fui.

Eu vou.

E dormiu... sonhou...

 

no momento: eu sou, eu fui, eu vou.
aos ouvidos: Raul Seixas - Gita

por Dani Takase às 23:35
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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

... de Artemis.

Ela observava, lá de cima, longínqua e indagadora. Não havia raio nem diâmetro, ainda não era o círculo perfeito, não era a geometria exata, mas era a forma precisa para aquele momento.
Não importa o que digam, ela não será redonda porque alguém disse, imperfeita porque alguém a julgou assim, ela simplismente é.
E o que ela aparenta ser era o mais indagante.
Sobre um todo azul, às vezes esfumaçadamente coberta por um rosa-alaranjado, aquela forma quase-circular cintilava. Nem seus mares são contornos perfeitos. De longe são só manchas.
Acinzentada, avermelhada, azulada, amarelada, depende do dia - da noite. Ela só brilhava. Assim como os olhos de quem assistia. Dois pares, mais precisamente. Um par. Uma matemática infindável.
Que o olhar mostrasse mais que o gesto, que o gesto falasse mais que a palavra, que a palavra que não fosse dita - que subentendida, inconsequente, inexistente - subsistia, inconsciente.

no momento: all was golden in the sky.
aos ouvidos: When the day met the night - PATD

por Dani Takase às 02:36
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